"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Esvazie a sua xícara: acerca dos poemas Samsara, O Vazio e o Nada, A flor e o bambu (o Zen, o Tao e a Gestalt)

Esvazie a sua xícara. Foto: Fênix Cruz, 2012.


" - você tem consciência de que terá de esquecer tudo o que aprendeu e recomeçar?"

(O Zen nas Artes Marciais, p. 20)


Provocar é a palavra-chave para transformar. É ação. E dela: reações, sinergias, mutações... desconhecidos plurais.

Aquele que não enfrenta a dor do medo  - todos os fantasmas conhecidos -, culpa por seus próprios infortúnios o desconhecido. Demoniza-o. Angustia-se diante daquilo que não identifica como espelho e fecha os olhos, ao invés de encarar e apurar melhor a visão (1). Contudo, ver significa matar um pouco de si.  Samsara é essa morte interior necessária, onde é preciso deixar morrer a parte daquilo que julgávamos como absolutamente certo, mas que agora agoniza, para deixar brotar a semente de uma nova experimentação completamente diferente, onde Nada é. Morrer e renascer dentro deste ponto de vista é uma "passagem", um ritual solitário - aterrorizante -, porque desconstrói e de imediato Nada preenche ou preencherá outra vez. Conforme o autor Robert Powell em  "Zen e a realidade", isto ocorre porque recebemos desde a infância conceitos fechados que irão fazer parte daquilo que nos, teoricamente, identifica o ego. Ele argumenta em sua obra que o pensamento ocorre quando a experiência não é entendida de modo suficiente pelo indivíduo, que evoca o "resíduo psicológico", isto é, o apego a algum padrão habitual de pensamento. A ilusão do ego é a soma total dos padrões com que a inteligência se identificou e os sofrimentos resultantes advêm desses conceitos.

Do conhecimento que se fundamenta no passado surge o  "desagradável" e o " agradável" e a tensão entre o que é e o que não é, dentro de cada ponto de vista ou consciência, causa ou não o sofrimento. É assim que a ideação impede o entendimento e a percepção da Realidade. Enfim, o medo, a dor, as angústias em geral se constituem na nossa submissão a um ou mais conceitos da mente. São eles suposições condicionadas pela sociedade / grupo ao qual se pertence e a libertação representa a insubmissão a tais conceitos, pois a mente é a nossa prisão (2).

Um ponto-chave:

" (a ideação) é o processo de uma mente que só consegue 'ver' as coisas de determinada maneira segundo o padrão de seu condicionamento" (3)

Em nossa cultura ideias restritivas e depreciativas representam uma barreira quase intransponível à nossa percepção que "para" naquilo que foi pré-determinado como sendo o certo.  A imagem que se forma é a da negação - a da dualidade onde uma coisa exclui a outra  e não se complementa. As possibilidades se restringem e os pensamentos que convidam a ultrapassar os portais rumo ao desconhecido, sem hesitação, são simplesmente trancados para não se ver nada além. 

Está em cada um de nós a experiência, o insight, o ponto do entendimento que, logo, retorna ao zero por ser ínfima parte a se acrescentar a um todo mutante. Vale dizer que produzimos tantos conceitos e  palavras sofisticadas na ilusão de explicar o inexplicável, encaixando realidades diversas num só modelo inflexível de vida... contudo, o que se gera é ainda mais confusão.

Em um capítulo de " O Zen  nas artes marciais", Bruce Lee relata a Joe Hyams, um dos ensinamentos que ouviu de seu mestre:

"(...) - disse-me (para Bruce). - É a respeito de um mestre Zen japonês que recebeu um professor universitário que o procurou para informar-se sobre o Zen. Desde o início do encontro,  ficou claro para o mestre que o professor não estava tão interessado em aprender sobre o Zen como em impressionar o mestre com suas opiniões e conhecimentos. O mestre ouviu-o pacientemente, sugerindo ao fim que fossem tomar chá. Ao servi-lo, o mestre encheu a xícara de seu visitante e continuou despejando o chá.  O professor olhava a xícara derramando, até que não conseguiu mais se conter: ' a xícara está cheia! Não cabe mais!' ( e o mestre respondeu) 'Como esta xícara (...), você está cheio de suas opiniões e especulações. Como poderei mostrar-lhe o Zen, a menos que você esvazie antes a sua xícara?'" (4)

Como chegar a consciência de que devemos esquecer tudo que aprendemos até então, se quisermos recomeçar?

Este é um exemplo muito simples, que pode virar do avesso conceitos que temos como base para a vida. Esvaziar a xícara é Samsara. Mais duas palavras podem nos ajudar na grande virada: o Vazio e o Nada.

Os termos Vazio e  Nada, numa primeira impressão, o que podem nos fazer afirmar imediatamente? Que tipo de sentimento / sensação eles nos trazem? Resposta bem fácil, não?

 Esvazie a sua xícara. Foto: Fênix Cruz, 2012 ( edição: Gimp)

Ao contrário do que insistimos em ver, O Vazio e o Nada apresentam-se de uma forma que pode ser positiva e aberta: ( outra vez...) a xícara pode conter mais líquidos a medida que sorvemos o anterior. Sorvemos e metabolizamos abrindo espaço para o ciclo interminável da auto-alimentação. Espaço na xícara  e espaço dentro de nós para o "mais", para outras experimentações. Do mais, só vício e a anemia conceitual e de informações transbordando, se perdendo, sem vivência, sem sentido. O Vazio  é o da busca da Realidade e contra a ideação dos conceitos: o ego é um conceito da mente  (5).

Nossa percepção é limitada para aquilo que foi treinada, por esse motivo, muitas vezes não "vemos" aquilo que outra pessoa "vê" e só conseguimos perceber o mesmo após uma apreciação mais detalhada, com um olhar "diferente" sobre a coisa observada. A partir de então, essa nova experiencia é incorporada como parte dos dispositivos da nossa percepção. É treino. Vontade de se abrir para as mudanças. Ação.

" (...) Esquecemos, porém, todas as metáforas e imagens, pois elas produzem novas ligações e ilusões, barrando o caminho para o Nada" (6).

 Esvazie a sua xícara. Foto: Fênix Cruz, 2012 ( edição: Gimp)

E acerca do tempo...

Como outra invenção da mente humana, só pode existir o Agora porque o que existe é a experiência do que é o Agora. Os conceitos de "passado" e "futuro" cegam, segundo o mesmo autor, para a Realidade do Agora. Eles hipnotizam e dividem o individuo. O ego é a primeira divisão que surge e a fonte do isolamento humano em relação à Natureza (7), com a sua falsa noção de "superioridade". Estimulam a luta contra a nossa própria humanidade: serei eu Amanhã melhor do que fui Ontem ou sou Agora? Só a experiência no exato contexto de uma decisão dirá. Viver é um constante "improvisar". Onde há ideação há definição, há divisão, há rótulos, lemas, divisas, causas... (8). Lembrando que o bambu é forte por ser flexível, toda a sabedoria oriental está pautada nos elementos terra (Chi), água (Sui), fogo (ka), vento (Fu) e finalmente o quinto, o vazio (Ku).

Mas, e a Gestalt?

Essa Teoria não trabalha buscando causas no passado, aliás, passado e futuro psicológico são partes simultâneas do psicológico de dado momento, sendo ambos presentes no Aqui / Agora.  O Agora, como fenômeno que se percebe é o momento no qual "memórias" e "antecipações" estão presentes dentro de cada um de nós: " se lembrarmos ou anteciparmos, só poderemos fazê-lo no aqui-e-agora"(9).

Na Gestalt afirma-se que nossa percepção se organiza não por meio da soma das partes, mas do todo. As totalidades são constituídas de figura foco - onde está a atenção e a energia do observador -, e figura fundo - que está presente, entretanto, não é percebida, ficando num segundo plano momentaneamente. Algumas situações nos parecem mais nítidas do que outras. Mesmo que várias pessoas passem por uma mesma experiência, isto é, tenham um mesmo foco, suas histórias de vida, culturas, grupos diversos aos quais pertencem, etc.,  enfim, o fundo as faz "ver" diferente e a compreensão só pode vir da totalidade foco/fundo que não é fixa, variando a figura conforme interesses e necessidades (10).  Se não compreendermos essa totalidade mutante por conta dos "resíduos psicológicos", perderemos o dinamismo e ganharemos o sofrimento, o medo, a angústia, a dúvida  perante à situação inacabada que, busca-se resolver de qualquer forma, a fim de aliviar a tensão que ocupa nossa energia/foco (11).

Os elementos sincréticos que constituem o modo oriental de pensar, pelo menos até antes da inserção do capitalismo e das influências ocidentais (12), verdadeiramente, não há o que explicar, pois as sensações são únicas para cada um - descobertas que se fazem caminhando, sem normas ou guias de viagem. Aqui, o caminho é importante, pois sem ele não se tem como atingir o destino/objetivo.  Nesse caminhar é que veremos o que queremos ou podemos - a medida que somos estimulados para isso. Em " O que vê é o que sente" tratamos a respeito da Gestalt de forma indireta, apenas sugerindo a imagem. Há muito preparamos o nosso caminho para a compreensão daquilo que deveria ser pesquisado e relatado - nosso objetivo/Cultura Japão.  Por ele, o Taoismo, o Zen e a Gestalt. Por ser tão difícil escrever a respeito de modo objetivo - o que por si já seria falso -, os poemas e as imagens abriram a trilha desse subjetivo, ainda que não sem dificuldades. Para o entendimento das partes que virão, principalmente no que tange às Artes Marciais, estes temas são imprescindíveis. Todavia, nada disso pode servir para explicar - apenas e essencialmente para provocar. O mais atento pôde perceber que também nós precisamos nos utilizar de conceitos ( Gestalt, por exemplo), já que o que se pretende não é o radicalismo que nos levaria a outro conceito disfarçado, tão excludente e cristalizador quanto. Usamos a LINGUAGEM compreendida, CONSTRUÍDA, para DESCONSTRUIR. Por ora, juntem os cacos que restaram, limpem os seus corações e...

 Esvaziem as suas xícaras.

Notas:

(1) Frazão. Lilian Meyer. Gestalt-terapia, p49.: a autora observa uma importante questão

" Kierkegaard (1813-1855), outro importante filósofo existencialista, por sua vez, distinguiu   a angustia do medo, na medida em que a primeira não possui um objeto determinado, enquanto o segundo o tem." 

(2) Powell. Robert. Zen e realidade, p. 33 / 38.

(3) Idem, p. 38.

(4) Hyams. Joe. O Zen nas Artes Marciais, p. 20 / 21.

(5) Powell. Robert. Zen e realidade, p. 44 / 47.

(6) Ibid, p. 52.

(7) Ibid, p. 39.

(8) Ibid, p. 41 / 42.

(9) Frazão. Lilian Meyer. Gestalt-terapia, p. 59.

(10) Ibid, p. 51 /52.

(11) ibid, p. 53.

(12) Observamos que no período atual não interessa esse tipo de conduta ao Capitalismo que, fundamentalmente, se realimenta da introdução constante e ilimitada dos desejos e da reafirmação do ego / personalidade ( o Ser versus o Não-Ser). Surgem, então, as estratégias e as modificações na essência do Zen - este, logo é readaptado às novas linguagens econômicas, sociais e políticas servindo como manual estratégico de sobrevivência na arena capitalista das empresas. Isto é em decorrência da fusão de elementos e da reinterpretação destes no Japão / Mundo. Vemos, então, incorporados a todo momento nos animes / mangás, a influência ou a penetração direta do credo do ocidente, tais como shinigames desejando os prazeres do mundo dos vivos, como a compra de roupas, comidas e o que mais o dinheiro puder pagar ou, yokãis maravilhados com o valor mágico das tecnologias do "futuro" levadas ao "passado". A noção de "futuro" está presente nas falas, nas letras das músicas, no próprio olhar dos personagens. É uma cultura que está em ebulição. Alguns autores acreditam que o dinamismo é muito bom. E nós, não temos ainda a menor ideia. Essa resposta deve ficar em aberto, para os jovens da terra, não para nós meros e distantes observadores.


A Bibliografia completa constará na última postagem.


(Não se esqueça de desligar o som do Mixpod...)


*Seja como a água...


*Bom ou Mal? Qual o foco? Qual o fundo?




http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2011/10/o-que-ve-e-o-que-sente.html

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/04/delicadezas.html

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/05/pequenas-grandes-coisas-em-movimento.html



http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/08/samsara.html#links

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/07/parte-ii-xintoismo-taoismo.html

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/06/cultura-japonesa-nos-animes-mangas.html

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/06/sem-titulo.html

 http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/05/amores-guerreiros.html

http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2012/05/outros-ventos.html

3 comentários:

Malu disse...

Fênix, tenho um amor muito forte entre as xícaras e seus conteúdos que sempre nos muito ensinam...
Abraços, minha linda!!!

Profª Lourdes disse...

Olá! Entrei para conhecer teu blog, fiquei maravilhada com suas postagens, já estou ficando e convido você a conhecer o meu se gostar participe, ficarei feliz e agradecida. Participando tem sorteio no blog, o link esta na lateral ,será um prazer te ver por lá. Abraços um lindo feriado e uma noite abençoada.
http://professoralourdesduarte.blogspot.com.br/

Fênix Cruz disse...

Malu:
A vida é tão simples, não é Malu??? Basta um olhar diferente, um outro entendimento sobre as coisas para acabar com todos os conflitos e guerras... entretanto, se as desgraças empregam tantas pessoas e geram dinheiro, a quem interessa o entendimento?
Lourdes:
com prazer, professora! Muito honrada com a sua presença. Desejo-lhe antecipadamente um Feliz dia 15! Beijos!

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