"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

domingo, 22 de julho de 2012

Parte II - A: Xintoísmo, taoismo, confucionismo, zen-budismo.

 Amatsuki, Kushiha. "O que liberta o seu monstro?"

“ Nosso pensamento se baseia na ciência, mas o pensamento deles se baseia na superstição. Se acredita em deuses, ayakashi e monstros, então eles, de fato, existem. Não rejeito esse modo de pensar.”
Amatsuki / Kon ( – episódio 3)


A mitologia japonesa - tal como a hebraica (1) e a grega (2) - , também tem o seu casal de heróis com suas características, tramas próprias e certos dramas parecidos. Só relembrando o que alguns autores costumam mencionar, o “Adão” e a 'Eva” japoneses enfrentaram destino semelhante ao de Orfeu e Eurídice, condenados à separação e / ou ao ressentimento mais profundo. No mito japonês da criação, Izanagi e sua amada Izanami atravessaram a Ponte Flutuante do Céu para criar na Terra um reino que, não fossem as “adversidades”, teria sido por força de suas vontades o Paraíso terreno.
O relato dessa saga de transpor o mundo dos deuses celestes por sobre um belo arco-íris(3) e atingir o mundo esquecido dos mortais criando a Terra do Sol Nascente ou Nippon, dando-lhe vida, alma e espiritualidade encontra-se no Kojiki ( 712 d.C) e Nihonshoki (720 d.C). Estes dois textos antigos NÃO são considerados sagrados, apenas descrevem a criação do mundo pelo casal celestial, os irmãos gêmeos, filhos do deus Shinto. Deles teria surgido a ilha do Japão, a sua Natureza, os kami, que são divindades espirituais combinadas com grande número de forças e essências sobrenaturais (4). Mais tarde, muitas outras divindades foram incorporadas pelo xintoísmo, originárias do budismo e do taoismo (5). É importante ressaltar, entretanto, que o xintoísmo tem a sua origem no Japão recebendo e adaptando as contribuições estrangeiras à sua maneira e necessidade espiritual. Em quase todos os animes analisados, em maior ou menor grau o xintoísmo está presente na vida cotidiana japonesa: marcos ou símbolos como o torii (portal); a shimenawa ( corda de palha trançada para proteger a entrada do templo); o kamidana (santuário doméstico) e outros, referentes à fusão com as demais religiões citadas(6).
Fica evidente em diversas situações que a tradição xintoísta não acredita que haja uma dicotomia absoluta entre o bem e o mal, sendo que uma mesma entidade pode manifestar qualquer uma das duas faces, dependendo das circunstâncias. Os exemplos são muitos. Izanami, a mesma deusa criadora, também tornou-se a kami da morte e a grande mãe destruidora (7) após a sua partida para o Yomi; a raposa, símbolo positivo das boas colheitas, pode tornar-se por algum motivo um espírito enlouquecido trazendo doença e morte; os espíritos maus, os que chamam de onis ou demônios surgem a todo momento como personagens tanto quanto ambivalentes (8). Os exemplos:


“Izanami [sic] chegara tarde demais a Yomi no Kumi, o Reino Infernal. Sua mulher já fazia parte de um mundo que não era o dele e dava à luz filhos que só trariam ao mundo morte, aniquilamento e destruição.
Distraído em sua terrível dor e desconsolo, Izanagi ergueu o facho da lanterna bem em direção à deusa que voltou para ele os olhos incrédulos.
_ Como pôde quebrar a promessa? - ela vociferou em fúria e, voltando-se às suas bruxas guardiãs ordenou, com voz diabolicamente distorcida e irreconhecível:
- Cacem-no!”

(Considerar o primeiro nome como Izanagi – o varão -, e não Izanami -, como consta no texto original. “As melhores histórias da mitologia japonesa”, p.74)


Em Amatsuki, a raposa Imayou amargurada pelas lembranças da árvore sagrada tombada pelos comerciantes do vilarejo torna-se impura e ataca os humanos tomada pelo seu ódio.




( Capítulos 11 e 12. Em português:  AnimaZone / Anitube).

Em Shounen Onmyouji a figura real e histórica de Abe no Seimei (9) mistura-se com as lendas criadas a seu respeito e, novamente, surge a raposa , como uma das formas de um deus / fantasma, o Touda, também chamado de Guren e de Mukkun. Este Shikigame é visível para poucos e possuidor de um enorme poder. Comum no folclore japonês, os Shikigames aparecem em Nurarihyon no Mago (invocados pelos onmyoujis), em Inuyasha (por Kikyou) e outros. Ainda em Inuyasha, shippo é o yõkai raposa, enquanto que o próprio Inuyasha, um hanyou (meio humano e meio yõkai) cão – outro ser mitológico que aparece bastante. Em Amatsuki, Kuchiha é um Inugame-tsuki - "pessoa possuída pelo espírito de um cão". Yõkais lobos, tigres, aranha, serpente, híbridos e mononokes, enfim, uma infinidade de entidades tornam o diferente / misterioso aceitável, em grande parte com seus defeitos menores do que suas virtudes. Os mais feios, muitas vezes, são os mais bonitos, tal como os exemplos de Jinenji ( Inuyasha, episódio. 31); Kurumanosuke (Shounen Onmyouji, episódio 08); Aotabo (Nurarihyon no mago), não existindo uma regra externa para o belo e para o feio e, sim, interna: se luz ou sombra conduzindo as ações.


Guren - shikigame deus / fantasma. Um dos  doze invocados por
 Abe no seimei  / Masahiro. 


 Nurarihyon no Mago e a onmyouji com os shikigames.
  

o mononoke Kurumanosuke - Episódio 8

Quanto aos onis nos animes, ou são monstros disformes e destruidores ou têm a capacidade de se assemelhar ao humano possuindo inteligência e poderes aguçados, às vezes, são mais humanos do que os humanos...






Amatsuki,11 - oni em sua forma quase humana.

Do mito original, continuando o trágico desfecho, nasceram os rituais de purificação externos e internos, isto é, os ideais que regem os cuidados com a permanência de um ambiente sagrado, limpo, tal como espelho de um coração iluminado pela prudência, pela sabedoria, pela compaixão.

Izanagi:

“ Ao passar por um pequeno riacho, adentrou para lavar e expurgar as impurezas infernais da Kegareki kumi ( Terra Poluída) que haviam se impregnado em seu corpo.
À medida que foi tirando a armadura, os sobremantos, a pulseira, o elmo, pentes da cabeça e demais objetos pessoais, estes foram se convertendo em deuses e deusas. A sujeira fez nascerem inúmeros deuses perversos e demônios do mundo vivo.
No entanto, ao lavar o rosto, a água-viva deu origem a nobres e brilhantes Kami, para trazer equilíbrio ao mundo. Uma magnífica divindade surgiu do seu olho esquerdo: a poderosa Amaterasu Omikami, deusa do Sol e a mais importante divindade mitológica japonesa e precursora da família imperial. Do seu olho direito nasceu Tsukuyomi no Mikoto, o deus da Lua. Do seu nariz nasceu Susanowo, o deus da Tempestade e do Raio que viria a ser o Deus [sic] do Mar e um dos kami mais importantes e polêmicos do panteão japonês, e do qual descenderam os Tengu (híbrido de homem e corvo)”.

(“As melhores histórias da mitologia japonesa”, p. 77).

A excelente descrição da autora nos permite compreender ainda, além do nascimento das entidades malignas e dos onis dentro dessa mitologia, outro ser muito presente nos animes/mangás, o Tengu e, o mais importante, o surgimento da kami que teria dado início à dinastia imperial, justificando-a do ponto de vista político. Era o reinado do céu se estabelecendo sobre a terra (10).
Susanowo, o kami prepotente e rebelde, recebeu como herança de seu pai não o infinito dos céus, como os seus irmãos Amaterasu e Tsukuyomi, mas o finito das profundezas escuras do mar, o que o desagradou. O pai dos tengu – yõkai o qual os samurais acreditavam que descendiam os ninjas -, terminou banido de Takaamahara, o Reino dos Céus, após muitas crueldades e desrespeitos praticados contra a irmã (11).
O tengu ou homem-pássaro está presente em Amatsuki, Shounen Onmyouji, Nurarihyon no Mago/Makiu e como a raposa, ora pode ser bondoso, ora feroz e destruidor. Dentro do ponto de vista “político” é possível – ou seja, apenas uma conjectura -, a associação da figura do Ninja com a do tengu como uma representação da luta entre os irmãos Susanowo e Amaterasu pelo poder no céu e na terra (12), sendo os samurais a força da família imperial e de seus muitos vassalos. Dai a oposição e a constante ligação da “ordem” com os samurais e do “terror” com os povos das florestas, os ninjas.


Pedimos desculpas pela demora nas publicações, entretanto, o trabalho de pesquisa sobre o material escolhido é complexo e muito rico. Por essa razão que dividimos em partes (até IV), de modo a esclarecer  dentro do nosso possível o espírito que faz essa cultura, uma das jóias preciosas que compõem a Cultura no mundo.
A bibliografia completa constará na última publicação.
 
Notas

1 - http://pt.wikipedia.org/wiki/G%C3%AAnesis.
3 - Alguns autores identificam a Ponte Flutuante do Céu como sendo o Arco-íris, que embora tenha muitas outras representações - de acordo com a cultura local -, neste caso pode surgir simbolicamente como ponte ou o arquétipo que representa a transição entre os diferentes mundos ou, mesmo, a união entre o Céu e a Terra, agora sagrada pela presença dos Kami e mais tarde, de seus descendentes ( Amaterasu e a origem da família imperial). Para mais informações: "Almanaque Ilustrado - Símbolos", p 202/203.
4 – “Conhecendo o xintoísmo”, p.26; veja ainda: http://pt.wikipedia.org/wiki/Izanagi.
5 – Idem, p24. Vale a pena ler: http://os-olhos-de-ulisses.blogspot.com.br/2007/01/shinto-tudo-deus.html
6 – “A Essência do xintoísmo”, p54 e 67.
7- “Conhecendo o xintoísmo”, p. 76.
8 – Idem, p26.
10-  Em essência, politicamente nada diferente dos senhores feudais do ocidente que se apoiavam em princípios religiosos, quando justificavam o poder que lhes era concedido de possuir a terra e o poder político, por meio de teorias habilmente articuladas pela Igreja, detentora única do grande poder e a maior manipuladora da época. Veja também: http://www.coladaweb.com/historia/feudalismo; http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/feudalismo/feudalismo-5.php;
11- “As melhores histórias da mitologia japonesa”, p.83 e 94.
12 –  Trataremos na parte II  - B  acerca do  Feudalismo japonês.


Parte II – B : Xintoísmo, taoismo, confucionismo, zen-budismo.

"(...) na verdade, acho que este lugar está impuro. O espírito do kami não pode descer em um lugar assim".

                                                                                                  (“A Essência do xintoísmo”, p.66)


http://www.mixpod.com/playlist/89106103

2 comentários:

Malu disse...

Fênix, passar por aqui é sempre gratificante porque temos a oportunidade de conhecer novas formas de culturas, sejam elas de quaisquer âmbitos. Aqui aprendi mais um pouco.
Um grande abraço...

Fênix Cruz disse...

Malu - é sempre um prazer tão grande saber que você está junto do Engenho/Fênix! O que faço é porque gosto, tal como você - somos apaixonadas pelo nosso "trabalho" - porque é o que ele "se torna". Algo voluntário, que nos faz dar a alma para apenas imaginar um "brilhinho" nos olhos de quem está lendo...alimenta, não alimenta?

Muito obrigada!

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