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O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

domingo, 29 de agosto de 2010

Democracia: reflexões a respeito dos direitos da mulher – um estudo do século XX.

 Desenho: "Olhar Feminino",Fênix, 2010.
“ A imagem de Kitchener nos cartazes, fisionomia severa, olhos de aço, apontando o dedo diretamente para o rosto de todos. Fazendo propaganda de guerra, vendendo-a como os sabonetes Pears ou White Manor Tea Shops. E, é claro, os homens iriam depressa se apresentar à procura de um pouco de agitação e aventura. As mulheres também...

MULHERES DA INGLATERRA, RESPONDAM AO APELO

… para serem preparadas como enfermeiras no Queem Alexandra's Imperial Military Nursing Service, na Cruz Vermelha ou aprender o trabalho traiçoeiro de colocar lidite nos obuses. Muito melhor do que servir mesas e esfregar corrimões.”

(Quando os sinos se calam – Phillip Rock, 1979 / ficção ambientada em 1914)


A ironia da Guerra é ser um substantivo feminino, um símbolo masculino, de efeitos práticos drásticos para a humanidade...
O início do século XX foi marcado pela surpresa de um conflito que, embora tenha sido teorizado e nutrido ideologicamente entre as partes opostas envolvidas, não fora de forma verdadeira esperado(1). Este “inesperado” deflagrado sob a pressão das paixões e das febres patrióticas, talvez, seja mais dinâmico e complexo do que a história descritiva e polarizadora nos permitiu vislumbrar.
Foi a morte de milhares de Seres Humanos, na Primeira Grande Guerra Mundial, por questões políticas e econômicas entre as “nações” (2), o elemento desencadeador da primeira reação contra os valores tradicionais-patriarcais nas sociedades liberais democráticas. Diante do flagelo real, o mundo entre guerras já abalado por mortes ou humilhações sofridas, seja intra ou extra fronteiras, assistiu ao surgimento e ao desenvolvimento dos regimes Totalitários e à explosão da Segunda Grande Guerra Mundial. Buscou-se heróis e culpados para ambas, o soldado permaneceu “soldado” e, como da outra vez, continuou desconhecido. A mulher figurou entre os apelos e os homens morreram pela pátria, a grande “mãe” fictícia.
Se foi o pai, father ou fathers e, não os pais – parents – que ensinaram a morrer ou matar o Outro visto sob juízos de valor, descaracterizados do humano(3), ficava evidente que a Igualdade, Liberdade e Fraternidade estavam longe de anunciar, como muito foi posto, o fim da opressão entre os homens-irmãos, menos o faria em relação às mulheres.
Se quisermos explicar a democracia e os direitos da mulher, a chave dessas problematizações deve ser buscada na Revolução Francesa.
François FURET, em sua obra Pensando a Revolução Francesa, nos chamou a atenção para dois pontos relevantes na elucidação deste trabalho. O primeiro refere-se à “obsessão pelas origens” desencadeada pela construção da “história nacional”(4). Dos Estados, no que tange à democracia, ela pode ser observada nas contínuas convocações feitas ao sexo feminino, principalmente durante os períodos de guerra - para que auxiliem o seu país...
O segundo refere-se aos recortes e compartimentações inventados pela periodização realizada entre os acadêmicos franceses que, ao estudarem a Revolução de 1789, limitaram-se a separar e rotular nominalmente os acontecimentos entre “antes” - o feudalismo, a nobreza, o Antigo Regime, a Idade Moderna -, e o “depois” - o capitalismo, a burguesia, a democracia, a idade contemporânea – reduzindo e só em aparência, explicando a história (5). À ideia de causa-efeito, critica CASTORIADIS utilizando-se da terminologia “sinergia”, que para ele é a “concatenação de fatos 'não relacionados internamente' mas coexistindo externamente (sendo que) tais fatos, ou acontecimentos, provocam o aparecimento de fenômenos situados em outro nível possuindo uma significação que de longe transcende a de suas causas” (6). Dessa maneira, o fluxo e o refluxo histórico não comportam regras definidas e a história - deveras linear -, não só deixou de ser o saber dos fatos que falam por si(7), como também, “mostrou ser o campo onde emerge o significado, onde ele e criado”(8). As sociedades e as instituições são históricas e conjunturais, assim, como bem expôs em palestra(9) Lygia Quartim de Moraes, tudo é um “composto social”. Para exemplificar, dentro do nosso ponto de vista, basta lembrar que no mercado do pós-guerra a mulher é um indivíduo a mais na efetivação do circuito da produção/consumo/mercadorias. E, ao abordar acerca do tema trabalho, Quartim colocou que a grande diferença entre a revolta das mulheres da década de 50 para cá (1995), é justamente o “desconforto” de uma dupla jornada. Se a luta foi pela autonomia através do trabalho, sabemos hoje que isto é uma falácia, porque as mulheres dos estratos mais pobres sempre foram obrigadas a trabalhar, nem por isso livraram-se dos afazeres domésticos ou sequer, tiveram o seu poder político e de decisão reconhecidos. A “Panaceia do voto”, conforme Emma Goldmann, não trouxe a tão esperada liberdade e só levaria as mulheres a o adorarem como a um novo senhor (10)...todavia, ele já é um começo. Falta-lhes ainda, em boa parte, é consciência para lidar com as entrelinhas dos discursos, dos apelos emocionais “engrandecedores” até meio “ufanistas”, com os estereótipos que se moldam sob outras formas e com os mesmos conteúdos.
Não discordamos das virtudes primeiras da Revolução. Porém, da teoria à prática há um grande espaço vazio a ser preenchido à posteriori, em consonância com o dinamismo político, econômico, social e cultural local. Os signos da Revolução devem ser decodificados para que deles, se revele o que e a quem os direitos garantem e, por isso, são garantidos...
Finalizando este tema, devemos advertir que nossa crítica não é, absolutamente, contra a democracia, e sim contra a aceitação passiva ou à tendencia atual de se desconsiderar as relações de dominação reelaboradas, mas ainda existentes e encobertas no interior do Contrato Original, Sexual e de Trabalho. As conquistas efetivas do gênero estão sendo trocadas, gradativamente, por posições de status e outras, similares às ambições masculinas. Valores idênticos são tomados como justificativa dessas ações, como é o caso da concorrência, da competitividade,
do individualismo, etc. O distanciamento do feminino, o auto-conhecimento, a auto-estima, as peculiaridades corporais, o exercício da sexualidade , muito recentemente vem sendo tratado em raros trabalhos como o de Rosiska(11), dignos de nota e de leitura. É um novo caminho. Basta, agora, que se ouse continuar a traçá-lo assumindo a identidade feminina e exigindo não do sexo oposto, mas de si mesmas, soluções e respostas: “Eu não sou O OUTRO”.
Notas


1 HOBSBAWM. Eric. A Era dos Impérios. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992, p. 418 - 419.

2 HOBSBAWM. Eric. idem idem, p. 421. O autor alerta sobre o desenvolvimento de uma cultura nacionalista, isto é, sobre a "inculcação do comportamento cívico apropriado", trabalhado ideologicamente junto às escolas primárias e ao serviço militar.

3 SEVCENKO. Nicolau. Disciplina História das Ideias. Curso ministrado no depto de História, primeiro semestre de 1996.

4 FURET. François. Pensando a Revolução Francesa. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977, p. 16 - 17.

5 FURET. François. Idem, idem, p. 16, 17 e 27.

6 CASTORIADIS. Os destinos do Totalitarismo e outros escritos. L.P.M. Editores, Porto Alegre, R. S. , 1985, p. 8.

7 FURET. François. Op. cit. p. 26.

8 CASTORIADIS. Op. cit. p. 08.


9 MORAES. Lygia Quartin de . Simpósio Dialética - em Comemoração ao Centenário da morte de Engels. Exposição: Marxismo e Feminismo. Novembro de ano, 1995.

10 LOBO. Elizabeth Souza . Emma Goldman. Coleção Encanto Radical. Brasiliense, 1983, p. 35.

11 OLIVEIRA. Rosiska Darcy. Elogio da Diferença. Brasiliense, S. P.,

BIBLIOGRAFIA PESQUISA:


BADINTER, Elizabeth. Um é o Outro. Editora Nova Fronteira, R. J. , 1986.

CASTORIADIS. C. Os destinos do Totalitarísmo e outros escritos. L. P. M. Editores, Porto Alegre, R. S., 1985.

FURET. François. Pensando a Revolução Francesa. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977.

HOSBSBAWM. Eric. A Era dos Impérios. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992.

LOBO, Elizabeth Souza. Emma Goldman. Coleção Encanto Radical. Brasiliense, S.P. , 1983.

OLIVEIRA. Rosiska Darcy.elogio da Diferença. Brasiliense, S.P.

PATERMAN, Carole. O Contrato Sexual. Paz e Terra, R. J., 1993.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracia na América. Companhia Editora Nacional - EDUSP.SP, 1969.



 Desenho: Babel - a meretriz, 2010.
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3 comentários:

cassini disse...

hola ,
muy interesante , textos que dejan huella ! me encanta tu blog.

Juci Barros disse...

Mais uma vez um post que nos acrescenta muito.
Beijos.

FÊNIX CRUZ disse...

Obrigada Cassini e Ju. Vocês me alimentam...beijos!

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