"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Uma pílula de esperança: o menino do dedo verde e as sementes sem jardim...



"Tistu deixa impressões digitais misteriosas que suscitam o reverdescimento e a alegria. '(...) o polegar verde é invisível. A coisa se passa dentro da pele: é o que se chama um talento oculto.(...) há sementes por toda parte. Não só no chão, mas nos telhados das casas, no parapeito das janelas, nas calçadas das ruas, nas cercas e nos muros. Milhares e milhares de sementes que não servem para nada. Estão ali esperando que um vento as carregue para um jardim ou para um campo.'”
(Nogueira Moutinho, Folha de São Paulo)


O menino do dedo verde - Maurice Druon.


Essa é a obra que o Cinema esqueceu. Talvez, porque se bem construída nas telas fosse tão comovente quanto revolucionária e perigosa: pode fazer brotar sementes indesejáveis nos lugares mais rústicos... e o que fazer depois que a ideia foi plantada?


Quem se ater à palavra pode até imaginar que é uma "estorinha" ingênua, para um público ingênuo, onde flores desabrocham em canhões e têm a capacidade de curar o corpo e a alma das pessoas. Se O menino do pijama listrado é ficção baseada em histórias reais, neste, à primeira vista, a imaginação dá as cartas e, perde aquele que desprezar sua força como elemento transformador da realidade. A Casa-que-Brilha para Tistu, a Torre-de-Marfim em Fantasia -  mundos inatingíveis que diante de um maior abalo não se sustentam - , o primeiro diante da força da realidade, o segundo frente a perda da imaginação...

Alguns tópicos traçados pelo autor são tão fundamentais à reflexão de nossas práticas diárias na lida com o Outro e com o ambiente à volta, que podem transformar de A a Z o que temos como sendo “certo” ou “normal” em nossa Cultura. Ele inicia argumentando que as pessoas grandes tendem a sustentar suas ideias pré-fabricadas, constata que Tistu é diferente das demais crianças e que, aquele que surge revelando o que ainda é desconhecido, é primeiro ridicularizado, hostilizado, jogado numa cadeia como corruptor da ordem, até que depois de morto, é tornado gênio e homenageado com estátuas em locais públicos. Essa é a linha norteadora: vencer as ideias pre-estabelecidas e cômodas que nos fazem infelizes em diversos aspectos é reconhecer que se deve construir a vida sobre novas bases, mesmo que se tenha que recomeçar tudo outra vez.

O polegar verde – o dom invisível de Tistu -, é capaz de transformar o que se faz latente, em atividade, e seu desenvolvimento não está devidamente presente entre os ensinamentos informais / formais da infância. Amar também se aprende – não basta dar de tudo, como muitos justificam os seus fracassos. Não basta uma Casa-que-Brilha: o amor incondicional, o amor que se realiza em sua plenitude na fase adulta, na convivência, na tolerância, na conciliação, no compartilhar. É curioso notar que tanto no Menino do Pijama Listrado, como no Menino do dedo verde, as crianças têm maior relação de amizade e cumplicidade com a criadagem. Há um relativo distanciamento dos pais que, embora amorosos dentro de certa perspectiva, não são amigos: não partilham sonhos, sentimentos, fantasias, segredos. Inspiram temor mais do que confiança (1). Algo para se pensar...

Há uma crítica explicita em relação à ética na nossa sociedade: papai e mamãe são muito “bons”, porém, vendo Mirapólvora como um quintal. Ajudando de forma política e conveniente a fim de não terem problemas e serem respeitados pelos mais próximos. O Hospital, a Escola (Repressora), a Fábrica (Opressora / Ordenadora) reproduzem um padrão aniquilador permanente. Aparatos do poder organizados e postos a serviço de uma engrenagem que, ao emperrar – desespera e descontrola (2) o sistema inteiro. Sistema marcado pelo MASCARAMENTO: a fábrica e a Casa-que-brilha são os contrapontos, um alimenta o outro dialeticamente falando. A felicidade da família de Tistu é a miséria na favela, é a dependência dos serviçais Bigode, Carolo e Amélia, é a garantia dos governantes terem uma cidade para administrar com gordas verbas, é a permanência dos conflitos e dos desentendimentos como algo “aceitável”, pois geram “negócios”(3).

E acerca das sementes?

Muitas vezes elas morrem entre duas pedras sem ter podido transformar-se em flor.” (p.39)

Essa é a obra que não só o Cinema esqueceu. Alguns educadores, a maioria dos empresários, gestores de RH e consortes deixam “sementes” dispersas por toda parte esquecidas – aguardando um polegar verde, isto é, uma oportunidade ou, uma pílula de esperança -, para verdejar. Como poucos parecem ter o dom, as sementes vêm se perdendo e a lembrança de Tistu, também.

Embora como um dever social, a educação dos mais jovens seja tarefa primeira dos pais, o seu aprimoramento é tarefa de todos que tenham conhecimento ou visão suficiente para ajudar a desenvolver talentos e pô-los a serviço do mundo. Essa é uma missão especial, um dom que requer desprendimento, solidariedade, altruísmo, empatia, enfim, uma série de elementos que são desenvolvidos e que podem tirar da rocha bruta flores de incrível beleza.

Quando aprendermos e ensinarmos que não é preciso preservar o que é mal para tirarmos proveito dele e viver às custas do sofrimento do Outro(4), talvez não precisemos mais de médicos, policiais e professores estressados por explorados, pois a felicidade, como coloca Tistu, dá sentido à vida e as pessoas deixam de ser inimigas para tornarem-se apenas pessoas – diferentes, mais iguais a mim em direitos e deveres. Um olhar muda: e quem sabe ler nunca se perde... são percepções.

Quantos Carolos ainda perderão o seu país? Quantas Amélias perderão os filhos, outros tantos um braço, uma perna, a razão? Quantas bombas ainda serão semeadas até que a terra esteja morta? Quantos ainda se lançarão ao crime ou, se deixarão tomar pela doença? Ainda, desistirão dos sonhos por se convencerem incapazes de estudar? Quantos, simplesmente, se suicidarão sem a chance ou a esperança de ouvir uma só palavra?

Entretanto, a escada para o Céu é o destino daqueles que muito fazem e pouco duram para continuar revolucionando. Deixam suas obras e poucos conseguem ter a mesma grandeza e autenticidade. Dessa forma, Tistu a seu tempo foi para o Céu, não sem antes deixar raízes fortes, degraus entrelaçados, flores e novas sementes. Se as obras se perderem com o passar dos anos e da moda, definitivamente, não haverá muito o que fazer para revolucionar as práticas da humanidade e, as sementes, dificilmente germinarão a ponto de causar grande transformação. E precisamos de muitos -  mais de muitos  verdadeiros Tistus...

Notas:



(1) “eu não sou igual” ao que eles querem que eu seja... lembrando que o ser “bonito” e o ser “feio” são conceitos socialmente construídos, onde o “feio” é a exceção, enquanto que o “bonito” está marcado pelo forte estereótipo do “tipo ideal”. Exemplos: o “cintilante” papai; a “perfumada” mamãe “loura” e de pele “macia”; o garoto “distraído” e inquieto versus o “estudioso” ( domesticado) que dá menos trabalho. Assim, a “distração” como doença incurável.

(2) Como os discursos políticos, científicos e dos repórteres, todos perdidos em suas concepções intelectuais, comerciais, etc, ou simplesmente, buscando vantagens particulares com a crise na intenção de se sobrepor ao outro de alguma maneira. Enfim, tornando o que é muito simples, em factoide.

(3) ...canhão sempre se vende seja qual for o tempo! Dizia o Sr. Papai...

(4) Da fábrica de canhões para a de perfumes; etc.









 





7 comentários:

Malu disse...

Assim como O PEQUENO PRÍNCIPE é uma obra grandiosa e realmente tem razão, esquecida pela indústria cinematográfica.
Eu li e reli e todas as vezes fluíram grandes questionamentos e angústias que abarcam este mundo complexo e cheio de maquiagem...
Suas postagens me encantam e me fazem crescer, sempre.
Vou partilhar, com certeza.
Abraços...
Nossa, os vídeos estão soberbos, estava inspirada.
Abraços

LUCIENE RROQUES disse...

Muito interessante eu não conhecia, os fatos por este angulo, muito boa visão, ficou ótima a sua imagem, sem dúvidas por aqui é um engenho de arte e literatura. Querida agradeço as palavras sempre, desculpe a falta de tempo.
Um grande abraço!

Universo Paralelo em Versos disse...

Demais teu post... eu adorei ler...absorvendo tudo que minha percepção cultural permite. Obrigado por tudo, enriquecendo minha vida. Aprendendo todos os dias um pouquinho. Os vídeos são demais tenho eles na minha biblioteca e eles completam todo o texto.

Rosemildo Sales Furtado disse...

Olá amiga! Passando para agradecer a visita e o comentário, assim como, apreciar este belo e verdadeiro post. Confesso que também desconhecia os fatos.

Beijos e ótimo final de semana pra ti e para os teus..

Furtado.

FÊNIX CRUZ disse...

Agradecemos com muito carinho a visita de todos!
Malu - sua presença é sempre um presente!
Lu - fico muito feliz que tenha passado pelo Engenho e muito grata pelos comentários ( leia o livro - é lindo - vc vai adorar e tirar as suas próprias conclusões - pois aqui é uma das tantas interpretações - a minha!);
Nelson - a sua percepção cultural é incrível e perceptível frente ao trabalho lindo que desenvolve... vc é inspiração, muitas vezes, amigo - muito grata!
Senhor Rosemildo que felicidade! Fica o mesmo pedido que fiz a minha Lu: leia! Façam essa experiência e depois me contem...certamente verão muito mais coisas que eu não vi!

requeri disse...

adorei isto aqui!!!!!!
obrigada.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Fiquei contemplando
tanta beleza,
neste final de noite,
onde as esperanças
precisam de alimento...


Que os sonhos te habitem
o coração, sempre...

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