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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Nos subterrâneos da Cultura: Lilith - a Lua Negra e os arquétipos do feminino (1ª parte)

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“ O amor de Adão por Lilith, portanto, foi logo perturbado(...) Assim perguntava a Adão: ' - Por que devo deitar-me embaixo de ti?(...) o Pai(...) compreende que a mulher desafiou o homem e, portanto, o divino. (…) Lilith desobedece à supremacia de Adão, Eva desobedece à proibição. Ambas assumem um risco, mediante um ato.”

( SICUTERI, Roberto. Lilith: A Lua Negra).

“...desta vez é osso dos meus ossos e carne da minha carne!” 

( Gênesis II, 22,25)

Arquétipos são mitos ancestrais que servem de modelo de conduta à sociedade. São os ritos que asseguram o apaziguamento das divindades, sempre "atentas" à falta de seus seguidores. A crença é de que elas reagem contra a humanidade lançando a sua fúria através de grandes castigos, como catástrofes naturais, doenças, conflitos, etc. A AIDS, logo que surgiu, foi associada por pessoas de índole mais retrógradas a um castigo "divino" sobre a homossexualidade. Era uma tentativa desesperada de explicar o medo daquele novo desconhecido, entre outros interesses.

A mitologia bíblica cujas raízes devemos insistir em recordar, tem fundamentos no Oriente junto ao povo hebreu. Ela contem não só os elementos de irradiação cultural que formariam mais tarde, o Cristianismo Primitivo, como também, elementos que foram absorvidos dos povos vizinhos. Analisando aspectos desse imaginário humano sobre os mitos e a sua ação discriminatória em detrimento à mulher, o psicanalista italiano Roberto SICUTERI elaborou um trabalho importante a respeito das diversas correspondentes de nossa principal protagonista: a Lilith hebraica.

Aparece na tradição sumério acadiana a raiz suméria LIL, nomeando várias divindades assírio babilônicas de espíritos maus, como Enlil, Minlil, Mulil, Anlil. Há uma etmologia hebraica que pode fazer derivar o nome Lilith, de Layl ou Laylah, que significa “espírito da noite”. Seu nome sofre profundas transformações, porém, conceitualmente, perpassa e atinge a cultura do mundo grego mediado por Lâmias, Erínies, Hécate ou Empusa: todos demônios femininos ou entidades malignas(01). A Lilith hebraica descendia da babilônica Lilitu, conhecido vampiro. Outros pesquisadores atribuem a esse demônio outras codificações, derivada de Lulti, que significa Lascivia(02). Assim, através do Mediterrâneo e da Palestina, divindades pertencentes aos cultos religiosos hebraicos e egípcios influenciaram a Grécia e, nela, sofreram adaptações. A Lua na Grécia pré-helênica inspirava terror e superstições inexplicáveis, devido à mudança periódica das suas fases (03).

Em Ninive, de 612 a.C., completa-se a passagem de Lilith como demônio terrestre para sua figuração astral, centrada na Lua. No conceito da Grande Mãe, por um lado permaneceu como espírito maligno terrestre evoluindo simbolicamente para a figura da bruxa- , e de outro, divindade cujo corpo foi associado à imagem da Lua Negra(04). A cisão veio depois de um longo caminho em que se foi dissociando a divindade feminina UNA, representada por suas funções de bem e mal– inconcebíveis no Cristianismo(05) –, em demônios de várias faces mutáveis e enganadoras. As representações femininas por meio da cultura / linguagem masculina a partir disso, passou a ser de anfíbios, seres instituais alheios à razão, rebeldes, selvagens, como se nelas a Natureza permanecesse imutável e com os seus ciclos regularmente marcados. A menstruação e a própria maternidade foram postas como prolongamento do natural, enquanto que os homens criavam rituais de iniciação que os inseriam no mundo social, estabelecendo a Lei(06). Não por coincidência que as imagens das feiticeiras medievais derivariam da grega Hécate, mãe impositiva, símbolo da concupiscência irrefreável, demônio noturno, megera perigosa(07). E não só dela... Circe emprestaria toda a sua fulminante beleza a outro modelo de bruxa medieval, longe de aspectos temíveis e infernais, para através de seus atributos esculturais seduzir com sensualidade, arrastando os homens à perdição. Circe, ao inverso de Hécate, era o amor convidativo e traiçoeiro...

“ A magia de Circe é somente o encantamento dos sentidos e a eterna sedução da parte jovem e aventureira. A deusa homérica é transformada em perseguidora, como uma Lâmia, porque freia o desenvolvimento e a 'viagem' de Ulisses e de seus homens (08).”

Semelhante ocorre com as sereias que, sem dúvida são o símbolo da sedução e da desrazão instituais, frente à ilusão dos sentidos (09), não são confiáveis.

Acerca disso, vejamos o mito de Ulisses.

( continua parte 2).

Notas:

(01) SICUTERI. Roberto. Lilith – A Lua Negra, p. 41 e 42;
(02)Ibid, p. 49;
(03)Ibid, p.68,70;
(04)Ibid, p. 58;
(05)Ibid, 61;
(06)OLIVEIRA. Rosiska Darcy. Elogio da diferença. p. 37 e 40;
(07)SICUTERI. Roberto. Op.cit., p. 79;
(08)Ibid, p. 97;
(09)Ibid, p.103.

Bibliografia:

OLIVEIRA. Rosiska Darcy de. Elogio da diferença – o feminismo emergente. Editora Brasiliense SP., 1991.


SICUTERI. Roberto. Lilith: A Lua Negra. Editora Paz e Terra. Série Psicologia, R.J., 1986.
http://pt.scribd.com/doc/3203249/Lilith-Roberto-Sicuteri

 http://fenixcruzengenholiterarte.blogspot.com/2010/06/estigmas-do-feminino-construcoes-e.html

Imagens:

 http://www.imagensporfavor.com/imagen/rosas-5088.htm

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3 comentários:

tecas disse...

Querida amiga Fênix, magnifico post. Fiquei mais rica de conhecimento, com o seu excelente texto. A evolução das mentalidades... Fiquei fascinada. Muita sabedoria.
Os vídeos são de uma beleza impar, especialmente o primeiro e o ultimo.
Aplauso sincero.
Bjito amigo e uma flor.

Amapola disse...

Bom dia, querida amiga.

A história de Adão e Eva foi predominante quando eu fazia o Catecismo. Ao longo da vida, sempre me lembrei disso, como se a mulher ainda devesse muito ao Criador.

Por mais que nos policiemos...

Menina, estava lendo um comentário seu no meu blog, e a emoção tomou conta de mim, porque você o finalizou dizendo assim:

"PARA NOS CONTAR SUAS AVENTURAS E DESVENTURAS".

Deus lhe pague... As lágrimas que derramo nesse exato momento por causa das suas palavras, são de gratidão, conforto e amor.
Você abraçou forte, a minha alma.

Beijos.

Deus está mesmo com você, e você, com ele.

FÊNIX CRUZ disse...

Amapola - coincidência ou não, hoje pensei na seguinte frase para o meu pretenso livro (!):

"Um amigo verdadeiro é como um anjo - está intimamente conosco em todos os tempos e lugares, por isso, talvez, nos pareça ser tão invisível."

Sim:

"PARA NOS CONTAR SUAS AVENTURAS E DESVENTURAS".

Senti a sua falta e esperei na certeza de que poderia ter o prazer de compartilhar contigo a beleza dessa VIDA. As pessoas têm tempos. O seu voltou e fico muito feliz! Estou aqui, como um anjo.

Vera, Tecas e Aluísio - agradeço muito as palavras - ando precisando, pois bem vocês sabem que às vezes dá um desespero e a gente tem vontade de desistir - tanto sacrifício para pensar, estudar, criar - e quem se importa com o pensamento? Aqui não tem "bundinha" e nem mulher "nua"... ainda bem, quem entra e fica tem cérebro!
Agradeço muito a todos! só por isso, continuo.

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