"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

sábado, 24 de setembro de 2011

Uma palavra ( final)

Estradas. Toques. E Janelas - FC, 2011.


Tininha antecipou o horário de sua ida à escola. Das sequelas do acidente a que menos lhe incomodava era a cicatriz imensa na perna esquerda, então, pôs um short e a deixou a mostra. Poderia querer chocar a seu modo. Vivia com a face fechada e com o olhar de quem está constantemente na defensiva. “Queria viver sozinha e distante de todos” – resmungava consigo. Andou em direção à biblioteca da escola e ali se acomodou. Ficou até dar o sinal de entrada montando a versão definitiva de seu primeiro conto.
Às 18 horas, Renata saiu da agência. Tinha aquele compromisso desagradável de avisar o homem do remédio e das cartas. Ao chegar à recepção, ainda tentou se livrar da incumbência amarga...
- Oi, seu Adamastor! E ai? O homem dos “quintos” deu as caras?
- Interfonei para o dito cujo, dona Renata, ele não atendeu. Costuma fazer isso. Nem me surpreendo. Pedi uma vez para que me avisasse quando saísse, ele gritou um retumbante “quê?”. Me chamou de “bisbilhoteiro”. Por isso, nem ligo. Uma hora o velho desce.
- Minha nossa, que criatura intratável... Ele não tem parentes?
- Quando chegou ao prédio não comentou, não. A gente se acostuma às manias do morador... Ele gosta de uma intriga! Deu muitos espetáculos de lá para cá! Nem pergunto pra não ter motivos dele falar...
- Tá... Vou pros “quintos”! Qual é o apartamento dele?
- No andar é o único ocupado. Os outros três estão vazios. Vai ser fácil porque cuida bem do saguão. É limpo... Tem plantas na porta... Pelo menos isso!
- Estou indo!
De repente, a garota estancou voltando-se para trás...
- O senhor sabe se o zelador descobriu de onde vem aquele “cheirinho” nojento?
- É, Dona Renata, estourou um cano no 404... Não deu pra ele fazer outra coisa...
- Isto significa que ao chegar ao meu andar vou patinar na lama do reboco? ( ...E coçou a cabeça reforçando o deboche...)
- O seu dia foi muito “pesado”, dona Renata?
- Esqueça, seu Adamastor... Já sei a resposta!
Tininha chegaria em uns 20 minutos. Renata pensou em esperá-la, “quem sabe, mal-humorado com mal-humorado pudesse resultar num monólogo ‘relâmpago’ bem sucedido”. Foi tomar um banho. “Maldição fedida! – é muito pior dentro do banheiro!” – reclamou torcendo o nariz.
A irmã mais nova chegou dez para as sete da noite.
- “Rê”, você tá ai? Chegou? Quero falar com você...
Gritou a outra do banheiro: “já saio”.
Minutos depois, saiu Renata secando os cabelos, vestida com um jeans desbotado, muito diferente das roupas que costumava vestir compulsoriamente para trabalhar.
- Oi... Quero falar com você ( disse Tininha, sem graça, meio que se encolhendo e quase desistindo...)
- A respeito de quê?
- Quando completar os dezoito vou embora. Isto significa que estou por aqui por mais uns três meses.
Perplexa, Renata puxou a toalha para cima do colo e deixou os cabelos úmidos escorregarem pelo rosto num caos de nós. Ana Cristina – “Tininha” – continuou...
- Você tem a sua vida. Eu quero ter a minha liberdade. Sair quando eu quiser, voltar quando eu quiser para e de onde me for conveniente. Será ótimo. O seu marido pode até resolver voltar...
Mansa, mantendo a racionalidade, a irmã tentou ponderar levando na brincadeira.
- Neste espírito rebelde percebo uma certa reprovação em relação a minha pobre pessoa... O que fiz meu limão galego?
- Por que teria feito algo? Nem tudo no mundo gira em torno de você! Tenho vida social, sabe? Aqui tenho que seguir as suas regras.
- Perdão! Não queria ofendê-la. O fato é que desde que chegou nunca a vi com um namorado ou uma amiga. A vejo pelos cantos com papéis e fotografias. Quis incentivá-la a escrever e levei um grande fora. Não a conheço, mesmo, Tininha. Você não deixa. Não sei qual pode ser o futuro de alguém que, embora muito crítica, não faz nada para ver o lado bom do mundo e das pessoas que estão à volta. Para quem quer escrever se não entende nem a si própria? Não supera os seus traumas! Dá para entender que no mundo real somos nós que restamos? Que toda a sua ideologia adolescente não preencherá os vazios futuros? Quer ir? Pois vá! Não precisa esperar a maioridade. Não reclamarei a sua falta...
Explosiva, Renata levantou-se e foi juntando algumas roupas da outra espalhadas pelo quarto, atirando-as sobre uma velha cadeira.
- Junte as suas coisas. Amanhã você sai. Por hora, vista-se! Vai comigo dar um recado para o vizinho do andar de cima. E é você quem vai falar com ele! Este será o seu visto de saída: me livrar de um igual seu!
A moça a fitava com um ódio incomum. Foi até o armário para pegar a mochila e ao jogá-la próximo à pilha de roupa, murmurou...
- Quando voltar, arrumo!
Dito, trocou a camiseta da escola rapidamente e se pôs diante da porta aguardando a outra se recompor da súbita ira.
- Subiram. Ficaram de costas uma para a outra cada qual amargando sua história particular de derrotas. Era só um andar e não chegava nunca.
No saguão, o velho conhecido odor estava impregnando as paredes – centímetro por centímetro cúbico de ar... Renata quase vomitou... Tininha fez menção de dizer algo, mas orgulhosa desistiu e fingiu suportar - “E o coroa não reclamou da carniça!” - matutou ...
Loucas para comentar, controlavam-se para não ceder...
- Ali... O apartamento é aquele! Muito “Limpo” disse o porteiro! Deus...
Havia moscas por todos os lados. Zuniam alto... Era difícil de falar sem medo de um desagradável acidente... Renata protegeu a boca e berrou injuriada...
- Claro que a sujeira é daqui! Cretino, porcalhão! Que organização!
Ele não deve ter posto o lixo na lixeira estes dias!
Vamos falar logo, Tininha!
Muito nervosa, Renata se pôs a gritar...
- Seu Juvenal atenda! Atenda! Atenda logo, pelo amor de Deus!
Com a blusa no nariz, a adolescente penalizada com o estado da irmã, a ajudou a bater insistentemente na porta.
- Esse fulano não tá ai, não! O porteiro tá é doidão, Rê... Olha... A campainha não funciona, vamos sair daqui! O velho foi embora e o Adamastor não sabe...
- Vamos, vamos logo... Meus punhos doem. Machuquei na porta...
E desceram até a portaria desesperadas para sair dali.
- Seu Adamastor! Descobrimos de onde vem aquele fedor horrível! Aquele velho maluco deve estar colecionando lixo... Parece miasma de bicho morto... Deve ser resto de comida... Sei lá!
- Calma, dona Renata! Respire!
Ela se sentou, enquanto Tininha regava a vômito as azaléias do jardim...
Três ou quatro moradores que passavam naquele momento ficaram ouvindo. Um rapaz foi atrás do zelador... Outro jurou que viu o seu Juvenal no elevador de manhã cedo...
Em meio a balburdia eis que...
 - Ai... Tininha... Perdi o meu celular... Minha vida está naquela agenda! Deve ter caído no elevador... Lá em cima... Não sei, que droga!
Interveio o Adamastor...
- Espera, Dona Renata! A gente sobe, calma!
E paciente dirigiu-se a menina...
- Melhorou?
- Ai... Pergunte às Azaléias...até que fui forte!
- Temos que subir!
Berrou a mais velha... O porteiro ainda tentou ser gentil...
- Quando eu subir, procuro dona Renata...
- Não, seu Adamastor, subi com ele porque aguardo um telefonema muito importante. Não posso esperar que o zelador chegue para que subam...
- Seu Antônio! Gritou o porteiro – fique aqui para que eu vá apressar o zelador!
O vigia concordou com um gesto. Renata e a irmã subiram. Com elas, a policia que havia sido acionada dez minutos antes para garantir a legalidade na entrada do apartamento. Afinal, o lixo tinha que ser removido. Em seguida, subiram o zelador e o porteiro com as chaves.
- Seu guarda, ele deve guardar o que ai dentro? Perguntou Tininha, pondo outra vez a blusa no nariz, enquanto Renata procurava o celular no chão...
- Achei! Achei!  (Ninguém a ouviu...)
- É minha jovem, não posso afirmar ainda...
Falou o guarda coçando a orelha...
- Achei! O celular! Tininha... Vamos! Ana Cristina não lhe deu atenção...
- É carniça, seu guarda? Insistiu a menina...
- O guarda fez uma expressão de dúvida. O zelador abriu a porta.
Ao escancará-la, a cena que compôs o quadro foi inesperada para alguns dos presentes... Varejeiras, toneladas delas, esvoaçavam sobre o “monte disforme” decompondo-se bem no meio da sala. Um líquido pastoso e quase preto empoçava em volta do cadáver e foi retido de escorrer porta afora, por um capacho grosso, posto um pouco mais à frente do ângulo de abertura da porta.
Paralisados, os quatro viram os policiais isolando o local. Renata desmaiou e precisou ser amparada. Acabou num Pronto Socorro Municipal. A adolescente, ainda impressionada com a cena, ouvia martelando em sua cabeça a sentença - “Seu igual...” E no corredor, aguardando a alta de Renata junto com o porteiro Adamastor, ela teve a impressão de ter ouvido alguém dizer...

“Uma palavra muda tudo... mas é certo acrescentar que, um bom ouvido, muda muito mais!”


Conceitos e verdades pétreas foram fissuradas e se desfizeram em fragmentos no mais absoluto silencio dos dias. Nem uma nem outra, a partir dali, esqueceu a dura lição daquele final de abril. As roupas voltaram para as gavetas e, os escritos, saíram delas...




Um comentário:

Jose_Kunita disse...

HOLA, FENIX: ESTOU LENDO COM MUITA ATENÇAO SUO RELATO.. É MUITO INTRIGANTE

POR CIERTO: GRACIAS POR VISITARME EN “EL HECHIZO” .. EL PRÓXIMO 31 DE OCTUBRE TE ESPERO ALLÍ
SALUDOS..

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