"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Uma palavra ( 2ªparte )

Toques...



O cansaço fez Renata adormecer profundamente aquela noite. Dormiu até sábado à tarde e, ao acordar, Tininha havia fugido para seus mundos paralelos e misteriosos.

Dois dias mais tarde eram outros os ares...

Madrugada. O telefone tocou em algum apartamento vizinho. As irmãs não definiram onde. Tocou tantas vezes quantas foram as que começaram a adormecer. Um chamado redundante a atingir pontos nevrálgicos do humor já decadente: o ruído e o odor juntos eram demais! Tininha irritou-se. Sentada à beira da cama buscou sobre a cômoda alguns escritos esquecidos. Renata, também se inquietou com a situação.
– Por que não dorme? Está pensando na morte da bezerra ou está sufocada com este cheiro maldito, como eu?!
- Os três! Esqueceu desse telefone que não para? Procurei pelo apartamento inteiro. O fedor parece estar concentrado no banheiro. Lavei tudo. Abri o vitrô que dá para a ventilação e nada. Uma noite muito quente, tudo fechado por causa da tempestade e do vento e nós aqui, a cozinhar por dentro!
- É. Vou falar com o zelador amanhã cedo. Está piorando cada dia que passa. Deve ser a fossa, apesar de parecer... ( e deu uma aspirada no ar...) Sei lá! Bicho morto? Nem isso! Não identifico... Só sei que é horrível!
Tininha sorriu sem ânimo...
- Estou começando a passar mal com ele. Enfim, veja com o zelador porque o problema é lá fora.
Dito, voltou a concentrar-se nas folhas que reescrevia atenciosamente.
Renata notou a dedicação...
- É uma pesquisa?
- Hein?
- Perguntei se é uma pesquisa?
- Algumas anotações. Coisas pouco importantes. Tenho as ideias e as escrevo. É isso.
A mais velha ficou interessada...
- “É isso”... É muito legal que escreva o que sente! Poderá publicar mais tarde! Se um dia permitir quero ler...
A outra a olhou sem emoção. O elogio não surtira efeito e, decepcionada, Renata ainda tentou...
- Este incidente noturno nos trouxe insônia. O que acha de compartilhar comigo aquelas rosquinhas que comprei na padaria com uma boa xícara de chá quente de camomila?
A moça mudou de fisionomia. Transfigurou-se. Partiu da severidade rústica à sátira requintada...
- Compartilho as “experiências”, as “vivencias”, por que não um “lanchinho” fora de hora?
Sem graça, a irmã calou. Baixou a cabeça sem entender a atitude tão agressiva. Engoliu em seco para não criar mais confusão. Simplesmente, puxou com delicadeza a ponta do lençol, ajeitou o travesseiro e deitou com a convicção de que superaria aqueles momentos difíceis.
Tininha percebeu a manobra, sentiu-se mau. Sua grosseria havia ultrapassado os limites. Arrependeu-se. Mas, tarde demais.
Às sete horas da manhã seguinte, a irmã mais velha, de olhos fundos e escurecidos, levantou-se. Sem olhar para os lados se vestiu e foi à zeladoria protestar contra o miasma que empestava o seu apartamento. Em razão da briga, sentia um imenso vazio. A sensação de uma derrota a qual não queria revanche. Não quis, no entanto, ficar remoendo mágoa. Fez um esforço para esquecer o ocorrido, concentrando-se na resolução prática de um real problema: o cheiro. Na portaria soube que outros moradores reclamaram do mesmo.
-Olá dona Renata! A senhora tem visto o seu Juvêncio? Preciso entregar-lhe umas correspondências.
-Não o vejo há uns cinco dias. Será que viajou? Ele é tão antipático, discute com todo mundo a troco de nada, dá até medo de dizer “Bom dia”! Semana passada o vi no elevador. Cumprimentei. Sabe o que fez? Disse “péssimo dia, minha senhora. Se soubesse que a encontraria não teria descido agora!”
- Nossa! O que ele tem contra a senhora?
- Pensei nisso o resto do dia. Fiquei sem fala! Ele desceu aqui no térreo e eu fui parar no subsolo! Tive que subir de novo...
( o homem sorriu meio desconsertado...)
- A senhora ri, Dona Renata?! Ele é doido!
- Não vou chorar, seu Adamastor... Ele deve ter os motivos dele para me detestar tanto.
O porteiro meneou a cabeça ao ver o jeito da moça. Apressada, ela finalizou...
- Bem, se o vir dou uma de cara de pau e peço para que desça...
- Tá bom...tchau, dona Renata!
- Tchau! Vou à farmácia rapidinho, o senhor pode chamar um táxi enquanto estou fazendo a compra do remédio? É muito ruim ficar sem carro!
- Claro!
- Obrigada, seu Adamastor!
Ela atravessou correndo a rua. Era um mar de prédios e a ilha, uma pequena e esmagada praça onde as crianças disputavam o mísero espaço com os seus tico-ticos e baldes de areia. Umas três árvores contavam a história da mata que cobria a região. As outras cinco eram “importadas” e gozavam de muito mais atenção e cuidados por parte dos moradores.
A farmácia ficava na subida, há duas quadras do prédio.
- Bom dia, Evair!
- Bom dia, querida Renata! O que encomendou está embrulhado e é só passar no caixa!
- Obrigada! Estou voando hoje...
- Ah... Se você encontrar o velho Juvêncio diga a ele que o remédio que encomendou chegou ontem!
- Deus! Você é o segundo que me pede para falar com o vizinho mais antissocial do mundo! Ele me odeia...
- O rapaz riu com gosto...
- Impressão sua, “Re”... ele odeia a todos nós! Talvez, até a ele mesmo.
- O porteiro tem correspondências e o senhor remédio... Tudo bem, passo no andar do mau amado para visitá-lo! Não me custará subir até o quinto, quem sabe ele perceba que “sou uma garota legal”!
Ambos gargalharam e ela, atrasadíssima, foi enfrentar mais uma de suas batalhas. Antes, finalizou mentalizando os humores da irmã...
- Ah... só espero que essa não seja apenas uma amostra do que será o meu dia!


( continua )

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