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O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A fragmentação do Humano sob o poder da palavra: os cuidados com a análise das categorias.

Outros Gritos, Fênix, 2011.

“O Progresso dos conhecimentos provoca o desmembramento do conhecimento, a destruição do conhecimento-sabedoria, ou seja, do conhecimento que alimente nossa vida e contribua para nosso aperfeiçoamento”

Edgar Morin, p. 99

“ (Edgar Morin) afirma que o primeiro saber é a compreensão das cegueiras do conhecimento. Para ele, todo conhecimento comporta risco de erro e ilusão.”

Revista: Filosofia – p. 29.

É de costume da Ciência de cunho Cartesiano-positivista separar, dividir, rotular e especializar com a finalidade de melhor sistematizar o grande fluxo de informações e de conhecimentos produzidos nas pesquisas científicas ao longo da História das Ciências, desenvolvidas no período. Sendo impossível para o ser humano acumular todos esses saberes sozinho, permanece entre nós o sentido aceitável da compartimentação(1). Entretanto, as classificações, as categorias, os conceitos se multiplicaram, perderam ou ganharam significados e, as desarticulações entre fatos e aspectos correlacionados emergiram em paradigmas: revelando essas mazelas conceituais seus respectivos conflitos. Apenas a contextualização do conhecimento pode lhe dar sentido (2), assim, “o todo é maior do que a soma das partes(3)”.
Muitos pensadores podem ter vivenciado em alguns momentos a desagradável experiência de ouvir as suas palavras e idéias descontextualizadas, completamente distorcidas. Logo, elas fariam parte de outros tipos de doutrinamentos, instrumentalizadas para novas formas de dominação, como por exemplo, os Totalitarismos.
Juntando as peças, quando se estanca a análise só dentro de um aspecto, sem levar em consideração as inúmeras outras variantes que constroem as relações sociais, incorremos no erro de ratificar a compartimentação das próprias relações humanas e, de nos posicionarmos fundamentados em falsos parâmetros – bem menos imparciais do que se anuncia -, dotados, sim, da mesma emoção e fé positivista. Assim, a demonização enraizada na fé judaico-cristã ganha corpo na Ciência do ateu. Muda-se o foco de Deus para a Ciência e, o absoluto, volta a reinar. Se a fé, com esse sentido, segrega muito mais do que une, vale pensar melhor que “ O homem é o lobo do homem”(4). Talvez, modernizando a frase - O ser humano é o lobo do ser humano.
A ordem previsível supõe, portanto, que para toda causa haja uma consequência. Essa é a leitura das Ciências clássicas que ignora os fenômenos dinâmicos (5) e imprevisíveis. E essa linearidade mecanicista limita a visão. No mundo não reina o aspecto só econômico: as relações de exploração estão presentes entre homens, ou o melhor, entre seres humanos e, são pautadas mais na ausência de uma formação Ética / Cultural de respeito ao coletivo, do que referente à uma classe social. Demônios e vítimas não dão conta de explicar as lutas sociais e de poder. Que sejam pelos micropoderes. Numa sociedade como a nossa, em que as crianças crescem valorizando o fútil, as relações transitórias e de oportunismo, e não o respeito e a ética para com o Outro, se disseminará em gerações como sendo o “normal”, o desejo de “submeter” e “vencer” por meio das formas de Poder. A nomenclatura do que se é ou deixa de ser, não explica sozinha, as macro e microvariáveis da exploração. Principalmente, no país da Lei de Gerson(6).
A questão levou-nos a relembrar a obra de SEABRA(7), a respeito de H. Lefebvre. Trata-se pois, de discurso sobre discurso, da imagem sobre a imagem, da representação sobre a representação, portanto, requalificada. Em suma, a falta de vivência que induz a uma falsa visão. À alienação. A palavra herdada entendida na FORMA e limitada num CONTEÚDO cristalizado, já esvaziado do contexto respectivo que o gerou.
A dualidade opõe e determina: rico versus pobre; mocinho versus bandido; descrente versus crente; cristão versus pagão, homem versus mulher; ocidente versus oriente...
Está na hora de resgatar a unidade perdida, mesmo antes da mercantilização da Vida, das Coisas, do Humano, do Espaço/Tempo: às vezes, heranças são doenças silenciosas. E essa unidade não será resgatada com teorias e esquemas econômicistas. Todas as variantes devem ser articuladas sob as condições específicas da análise ( tempo/espaço).
A solução distante, então, pode ser transformar o olhar do homem sobre o homem, tornando-o – que seja – menos predador na prática e mais propenso a pensar para além do bem e do mal. O mundo não precisa nem de heróis e nem de bandidos – precisa de GENTE.

 Outros Gritos, Fênix, 2011.

Notas
(1)http://www.infoescola.com/ciencias/surgimento-do-metodo-cientifico/
(2)Revista filosofia – Conhecimento Prático , p. 29.
(3) Ibid, p. 27.
(4)http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_homini_lupus.
(5)Revista filosofia – Conhecimento Prático , p. 27.
(6)http://www.interney.net/blogs/inagaki/2008/04/08/lei_de_gerson/
(7) Odette Carvalho de Lima Seabra, Henry Lefebvre e o retorno à dialética, p. 83.

Bibliografia

SEABRA. Odette de Carvalho Lima. A insurreição do uso. In: Henry Lefebvre e o retorno à dialética. São Paulo, Editora Hucitec, 1996.

MORIN. Edgar. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil,1990.

http://www.mixpod.com/playlist/84463965

7 comentários:

VeraBruxa disse...

Olá!
Valores corrompidos...é, precisamos de gente cosciente do seu papel. "...todo o desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana".(MORIN,2000:55)
Abraço, Vera Mosmann

Malu disse...

Olha passei para lhe indicar um link agregador que achei muito bom.
Estou falando do www.superlinks.blog.br.
Você vai poder divulgar suas páginas, pois os critérios deste site são sérios e vale a pena conhecer e suas páginas possuem excelentes postagens.
Um grande abraços..

FÊNIX CRUZ disse...

É verdade, minha mestra! Aliás, minhas queridas educadoras Vera e Malu - é sempre um grande prazer encontrá-las!
O Morin tem muito para nos fazer refletir e tentar, como nos for possível, ajudar a desenvolver essas capacidades é dever de todos. É óbvio que não depende só dos educadores - como se faz pretender na atualidade -, porém, pode ser que eles abram uma porta, deem uma chance, uma outra oportunidade que não seja a de se reforçar a segregação e tudo de ruim que pode trazer, já tão corrente em nossa cultura geral.

Malu - muito grata! Tudo que puder ajudar... acho que estou até desanimando - ainda bem que tenho vocês! Quando as coisas começam a complicar ( faculdade, serviço, casa, filho, etc...) lembro de cada um que entra por aqui, comenta ou deixa o seu rostinho mostrando que passou, então, respiro fundo, e volto a escrever, porque por vocês vale a pena!

Beijos!!!

mara* disse...

O homem é um nada com relação ao infinito e um tudo em relação ao nada. (Pascal)

O homem é um grande problema para si mesmo, visto que não consegue conhecer a si mesmo.

Beijo Fênix.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

É verdade.
Penso que precisamos
recuperar o melhor
do humano.
Novamente aprender
a olhar,
a sentir,
a partilhar...

Viver é sentir os sonhos
com o coração.

LUCIENE RROQUES disse...

Que belo texto, gosto de encontrar pprofissionais assim, ando pelos blogs de muitos educadores e vez ou outra encontro muita coisa que acrescenta, isto é precioso pensando a longo prazo.
Parabéns pela escolha do post.
Um grande abraço.

VeraBruxa disse...

Olá Fênix, tu és "uma querida"!
O carinho com que retribuis minhas postagens, a atenção passando pelo verabruxa, me deixam muito feliz. Obrigada. E hoje, em especial, pois ao ler teu comentário meus olhos se embaçaram num quase choro (eu que me considero tão racional), pois a tua compreensão intensificou o significado do meu olhar.
Abraço daqueles que se dá sem pressa de desfazer...

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