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domingo, 10 de julho de 2011

Reforma Urbana: estratégias espaciais como medida de homogeneização e controle - França, século XIX (1ª Parte)

 
Boulevard Montmartre,Tempo de Chuva, Tarde,1897, Pissarro ( detalhe).

"Muda-se a arquitetura e a sociedade a seguirá"
(Le Corbusier)

"(...) a cidade é um receptáculo especial, 
destinado  à armazenar e transmitir mensagens"

(Lewis Munford)

A partir do pressuposto de que a memória deve se materializar para existir (1) e se enraizar no espaço, integrando a vida cotidiana das pessoas que o habitam, pudemos nos servir da interpretação feita por OSEKI de um trecho da obra de H. Lefebvre. Nele temos a afirmação de que um modo de produção só pode ocorrer quando este engendra um espaço/tempo social que lhe seja correspondente. A realização plena do modo de produção depende, então, da reprodução de relações temporo-espaciais a ele pertinentes e duradouras(2). Na mesma linha, DAMIANI, analisando outra obra também Lefebvre (3), afirmou que falar em homogeneização é tentar fazer “tábua rasa” do que resiste e ameaça. Segundo a autora, o abstrato não é homogêneo, embora se busque tal situação como finalidade, como sentido, como objetivo. É a homogeneização que observamos nas entrelinhas do discurso de Le Corbusier, arquiteto que idealizou a estética da Arte Urbanística Moderna. Subverteram-se valores. A cidade deixou de ser receptáculo moldado pela coletividade, para ditar e moldar através de modelos preestabelecidos pela elite, o todo social.
Todavia, as representações não podem ser em sua totalidade destruídas: o planejamento é sempre uma intenção. Se cada mudança – fruto das novas determinações sociais daquele tempo específico -, tem seu efeito imediato sobre o espaço, não é possível a destruição completa da formas precedentes, no máximo, se as metamorfiza em suas finalidades, dando-lhes outro conteúdo simbólico. A essas formas remanescentes, o professor MILTON SANTOS chamou de “rugosidades”. Ocorre, então, uma mistura de formas novas e velhas, de estruturas criando outras formas mais adequadas a cumprirem as novas funções(4) Essa analise pode ser empregada, em teoria, às modificações ocorridas em Paris de 1853: da velha cidade muito ainda permaneceu e coexistiu com a monumental-planejada. As resistências, silenciadas através da força ideológica que se impôs, passou a ser externada por outras estratégias no que restou dos bairros operários isolados. É preciso observar, entretanto, que mesmo que a Reforma de Haussmann tenha desagregado a memória local, esta não desapareceu e a tradição co-habitou inserida em outro arranjo social(5).
A burguesia consolidada em seu poder, desde 1848, possuía pela cidade um misto de temor, fascínio e interesse. Nessa, se amontoavam multidões de operários contaminados por ideias generalizadas como anárquicas, junto a desamparados, desenraizados, etc (6).
Em meio a esse processo de transformação econômica, social, política e cultural, a população que permaneceu ou acabou de uma maneira ou outra, às margens dele, incomodava. Aliás, até a católica caritas(8), emblema feudal e paternalista, caíra em desuso, solapada sob a força da mentalidade vigente de uma seleção natural aplicada à(s) sociedade(s) Humana(s).
Foi no Segundo Império, sob o poder de Napoleão III que, conforme ORTIZ, a arquitetura regulamentada passou a seguir os padrões estéticos indicados pelos textos oficiais, como altura dos edifícios, fachadas, etc., do mesmo modo que artérias retilíneas cortaram e entrecruzaram o centro da capital, abertas em prol da rápida circulação de pessoas e de mercadorias. As ideias presentes nessa representação se exprimem no funcionalismo e no racionalismo: reflexos de uma mentalidade industrial(9). Esquadrinhar, arquitetar, gerir o espaço interno e disciplinar a população controlando-a detalhadamente, tomando desta a ação e o saber minucioso sobre a cidade, planejando e mapeando de acordo com os parâmetros capitalistas, traduzem o desejo do Barão Haussmann, prefeito do Departamento do Sena, em organizar o “corpo biológico” parisiense(10).

Continua na próxima postagem.

Notas

(1)ORTIZ. Renato.In: Cultura e Modernidade. São paulo: Brasiliense, 1991, p.215. O autor cita HALBWECHS.
(2)OSEKI. Jorge Hajime. O único e o homogêneo na produção do espaço. In: O retorn à dialética. São Paulo: Hucitec, 1996, p.109-119.
(3)LEFEBVRE.Henri. La produción de L'espace. Paris: Anthropos, 1996.
(4)SANTOS. Milton. Espaço e método. São Paulo: Nobel, 1992, p.51-60.
(5)ORTIZ. Renato. Op.cit. . 215-216.
(6)SENNETT. Richard. O Declínio do homem público – as tiranias da intimidade. São Paulo: Cia as Letras, 1988, p. 178.
(7)SCHNEIDER. WOLF. A História das cidades – de Babilônia à Brasília. São Paulo: Boa Leitura, s/d, .195.
(8)Síntese de uma antiga representação do Bom Governo, reúne valores do Cristianismo e fundamentos do poder legítimo. O rompimento dessa ordem viria com Maquiavel (séc. XVII) e sua negação da doutrina anterior. Maquiavel e Lúcifer foram equiparados: surgiu com ele uma afirmação do humano em oposição ao divino. Daí a sua demonização. Ver – ROMANO. Roberto. Conservadorismo Romântico – Origem do Totalitarismo. SP: Brasiliense, p.12-14.
(9)ORTIZ. Renato. Op. Cit., p 212-213.
(10)Ibidem, p.20. Racionalismo, Funcionalismo, etc., todas as expressões representam um amálgama da forma conceitual desse “corpo biológico”, cujo conteúdo, readaptados os elementos, têm em comum uma mecânica social, a mesma que regeria as Ciências Naturais – a seleção natural.

Agradecemos o carinho de nossos amigos: Parabéns  muito sucesso!

3 comentários:

E.A. disse...

Fénix,

Venho agradecer o mail que me enviou :)
Tenho andado ausente nos últimos tempos. Agora que os exames da faculdade já terminaram, espero vir com mais assiduidade.
Um beijinho,

vidaslife disse...

Oi amiga, interessante sua postagem gostei. Tem selinho de novo que ganhei de uma amiga especial e estou repassando para meus amigos especiais. Passe lá e pegue é um carinho. Bom dia e beijinhos carinhosos para ti.

FÊNIX CRUZ disse...

E.A. - eu a compreendo muito bem - eu também estou às voltas com a minha monografia final. Logo terei que apresentar à banca e estou apavorada! Também estou com problemas nas postagens de comentários, quando tenho um tempo, só consigo postar sem problemas nas "janelinhas" - como a minha. Recebi o meu computador NOVO do conserto nesta semana. Vou reinstalar o Ubuntu - agora o 11.04 -, depois vou visitar meus amigos. Estou em falta com todos eles! Beijos!!!
Vidas - aceito o selinho com muito carinho! Em breve passarei no seu blogue - só preciso reinstalar o programa no computador novo, pois este está praticamente impossível de usar. Fico muito nervosa devido à lentidão e os travamentos - já tive vontade até de desistir e fechar o blogue. Mas recebi incentivos de uma amiga blogueira, então, veja só o quanto você são valiosos!!! Beijos!

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