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O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

sábado, 8 de maio de 2010

Eu e a barata - o lado obscuro das ideologias nas imagens cinematográficas.




“(...) A atração de aparecer num filme envolve aristocratas, proletários, burgueses e intelectuais. Não deriva de tornar-se público, mas sim, de alcançar a imortalidade”
(CANEVACCI. p. 26)


Repugnante para alguns e quase ininteligível para outros tantos, o romance de Clarice Lispector – A Paixão Segundo G H – é verdadeiramente inquietante e por demais “Revelador”... Isto, dentro do aspecto religioso / místico nos soa com significados múltiplos e obscuros. Porém, no sentido do contexto da obra, a grande “Revelação” gera um mal – estar incontido, pois mexe com toda construção da identidade humana seja ela científica / racional ou religiosa / emocional. A protagonista aprisionada pelas convenções sociais – pelas criações culturais -, mergulha no ato reflexivo, descobre o (s) Outro (s) e (re) descobre a si mesma. No livro, a barata observada a remete à artificialidade de sua vida: fútil e vazia. No ápice deste processo doloroso devora a barata num só ímpeto, como se “A Redenção”.
E não só: é a própria REVELAÇÃO. E para compreendermos o que essa obra memorável tem a nos ensinar a respeito do Cinema, temos um longo e complexo trajeto. Porém, como nos alerta um autor que em muito nos proporcionou a fundamental base teórica, Massimo CANEVACCI: devemos sempre nos lembrar que “o passado influencia o presente em seus subterrâneos” - o mesmo passado que teoricamente rejeitamos...
O ser humano, em sua saga dita “ evolutiva”, acumulou cultura e se fez “ superior” a todas as demais criaturas criando no decorrer desse trajeto histórico / geográfico específico diferenciações internas à própria espécie. Inúmeras foram as justificativas diretas ou indiretas, de fundo religioso ou não, com o fim de estabelecer hierarquias entre espécies e entre homens / mulheres. Em suma, na luta pela sobrevivência material, a espécie humana desenvolveu estratégias culturais diferenciadas e, no tocante à Cultura Ocidental, o afastamento da Natureza e de tudo à ela correlacionado tornou-se sinônimo de “civilidade”. Em muitos momentos as alegações religiosas somaram-se às econômicas, às sociais, às “científicas” e atingimos o patamar onde as dualidades peculiares a este pensamento maniqueísta nos são claras: quanto mais próximos à Natureza mais “selvagens”, mais “bárbaros” e “menos” humanos e “civilizados”... Sendo o extremo oposto da afirmação acima a fina nata de qualquer sociedade...
Na esteira do Darwinismo social, o forte “civilizado” bem resolvido em suas necessidades materiais e espirituais é o “construtor” de obras e de cultura, dentro de uma perspectiva etnocêntrica, tendo o direito de submeter o classificado como “fraco” e ainda “dependente” dos ciclos naturais vitais de sobrevivência, como se ele próprio não conservasse mais as mesmas necessidades.
Este modelo foi disseminado no processo de colonização e submeteu diferentes povos não só à espoliação das riquezas materiais, como também, à destruição de suas identidades étnico-culturais. Por um lado, o discurso homogeneizado entre as potências que se impuseram imperialistas (re)inventou os seres “infantis” que deveriam ser cerceados e conduzidos pela elite cristã “culta” e “civilizada”, por “tutela”, já que “ignorantes” e desprezíveis”. Noutro posicionamento, também um tanto discutível, estes grupos continuariam sendo tutelados por serem “vítimas” de seu ambiente hostil, deflagrador de um estado de inércia e/ou incompetência que impediria de encontrar e solucionar os problemas vivenciados por eles, no cotidiano. Neste último contexto, simbolicamente, o herói é espelhado como sendo “externo”. O “salvador” dos oprimidos que parece desejar deslocar apenas o enfoque messiânico do âmbito divino verticalizado para o terreno antropomórfico. Talvez, um reflexo do padrão colonizador não observado e reproduzido pelos que dizem que não querem ser colonizados ou colonizar, mas colonizando...
Em relação ao poder da Arte e, em particular, do cinema, muitas foram as obras e surpreendentes as conclusões.
É tão intrigante quanto o mergulho crítico de Lispector, por meio de sua personagem atormentada, a reflexão de CANEVACCI a respeito das artes técnicas do cinema. Como uma conjunção arquétipica de vários símbolos construídos no decorrer da história humana e tendo como parâmetro unificador a psicologia de Jung, o autor afirma que teria a sala de cinema a disposição dos antigos cultos pagãos na Grécia Antiga. Posteriormente, com o advento da religião católica, Dionísio foi destronado pelo Deus Cristão e por seu filho Jesus. Se no primeiro momento a participação dos ritos e cultos dionisíacos se fazia sem separação entre o profano e o sagrado, com a nova religião inaugurou-se a ERA dos espectadores. Neste período da Antigüidade, ser objeto de olhares era sinal de prestígio e reforçava a subjetividade. Era o reconhecimento social. Ao contrário, apenas olhar era a aceitação da própria subordinação. Aceitação da subordinação do espectador. Depois que Cristo substituiu Dionísio, a Tragédia-missa-cinema é a fórmula de um processo complexo que se metamorfoseia a ponto de que se possa falar que a participação não transforma a própria presença em práxis, mas faz quem participa adaptar-se, tornar espectador: passivo, mero objeto e não sujeito/objeto da história, como no culto pagão. É a prática de um tipo de “voyerismo”, relembra MORIN.
Nessa passagem é que nasce o conflito entre o bem e o mal, tema Nietzscheniano. Toda cultura de massa tem essa inspiração religiosa: um elemento de beatificação e outro de demonização. O fato é que libertadora ou subterfúgio à manipulação de um grupo como forma de dominação coletiva, a arte/cinema, como as outras, para além do maniqueísmo judáico-cristão-burguês, ainda como CANEVACCI, tem que ser vista em seu poder mediador tal como a palavra (forma-signo) polissêmica e subjetiva (contexto-significados).
Este pensamento de origem simbólico-religioso transportado para o cinema espelha a antes comentada construção do “herói' e do “bandido” contrapondo-se incansável e incessantemente nas telas, isto, acrescido da típica lombrosiana e eugênica, dos séculos XIX: estereotipifica-se o “mocinho” à imagem e semelhança de si e do grupo a que se pertence, beatificando; ou, inversamente, “demonizando” o Outro recompondo os padrões do que é estético com o tempo/espaço aos moldes da ideologia hegemônica. Daí, também, surgem versões confusas que refletem indefinições ou ambigüidades deflagradas por crises internas de posicionamento do artista/autor/diretor. Marcuse e Benjamin desconstroem o revolucionário de alguns ícones da literatura mundial, como Baudelaire e Victor Hugo, quando afirmam que a rebelião secreta do burguês, em verdade, não traz vantagens e mudanças significativas para os personagens reais que lhes serviram de inspiração literária. Talvez, mais do que qualquer outra arte, o cinema tem esse poder persuasivo da imagem que penetra na psiquê humana, sendo o suporte da mercadoria/ideologia etnocêntrica e invisível , por excelência. Assim, para CANEVACCI a visão do absoluto é ruim em qualquer sentido e sempre esconde uma relação de classe; não auxilia aos que se dirigem por ser uma versão política...
Na reinvenção do cinema brasileiro o desprezo pelo “padrão estético” burguês americano e pela retórica, entre outras características, parece ser o “diferencial” classificatório para o termo “revolucionário”. A arte como criadora da beleza – em sua busca pelo padrão estético -, eclipsa, por exemplo, o quanto este padrão está enraizado no inconsciente coletivo e reflete a ideologia do “vencedor”. O cinema “denúncia” pode incorrer neste risco quando se utiliza dos mesmos dados manipuladores, maniqueístas e estereotipados daqueles que são seus supostos “opositores”. Recursos técnicos sofisticados, definições física e comportamental de como serão tratados os personagens, etc., são elementos externos e muito carregados de interpretações pessoais, preconceitos cristalizados, às vezes, imperceptíveis num primeiro instante – até para o dito “revolucionário”. O espetáculo provocado no conjunto de imagens cega as atenções para as entrelinhas dos discursos. E nem sempre “intencionalmente” - como se conspiração secreta.
Diretor, roteirista, ator, cenógrafo e tantos outros figuram como parte nessa transposição das outras linguagens para a cinematográfica: o ambiente e a história são manipulados de modo a tirar do espectador as reações esperadas. O comprometimento da Sétima Arte em reproduzir a realidade que se apresenta “ao olhar humano” por meio da intervenção na seleção das imagens/temas, das estratégias técnicas, da fixação do tempo narrativo, etc., tornou o cinema o suporte de uma das indústrias mais poderosas – a da IDEOLOGIA. Ainda, para LEITE, o “cinema tem poder de transformar lendas em fato. Em outras palavras, de construir e destruir contextos”.
Edgar MORIN aborda a respeito da transposição de outras linguagens para a cinematográfica: versões agradáveis e simplificadoras destinam a FESTA ao desaparecimento em prol do ESPETÁCULO. Ele explica que nós nos identificamos à personagens completamente estranhos e “vivenciamos” experiências que jamais foram ou serão vivenciadas ... E é verdade: não vivenciamos a EXPERIÊNCIA e “ O Fim” é sempre “ fim”.
Preservar a obra original não é, em definitivo, uma prática entre os diretores bem mais interessados em dar o chamado Happy end, como nos relembra MORIN. Sendo fiel ou não, em todos os casos é sempre útil não esquecer que são versões e recortes da realidade num dado “suporte”, nunca a realidade/verdade, se é que a última existe. Até porque o pilar da indústria cinematográfica está na PAIXÃO/EMOÇÃO, não na RAZÃO/LÓGICA. E a mídia, no geral, bem sabe como usar o seu poder persuasivo, seduzindo mesmo os “revolucionários”.
E para findar...
Picasso dizia: “ a Arte é uma mentira que nos ensina dizer a verdade” - para que a Arte cumpra esse destino de grandeza – tem que ser simplesmente Arte e não se impor como “verdade”. Precisa do conhecimento das Ciências aliado à criatividade, não da criatividade obscurecendo as Ciências... Tem que se conscientizar que está inserida num mercado de idéias que renderá lucros ou fracassos, não se colocando os seus mentores na posição sagrada de Dionísio / Deus/ Diretores (Salvadores?). Ou seus admiradores na posição passiva de em nada questionar e em tudo acreditar.
Só para não esquecer de Clarice - nossa musa inspiradora desse desafio que é unir esforços numa reflexão acerca das imagens cinematográficas em seus aspectos mais obscuros -, em uma de suas entrevistas, ela nos legou mais uma riqueza, a SINCERIDADE. Num dado momento, ao ser questionada pelo repórter respondeu que, talvez, os escritores escrevessem porque na realidade não quisessem mudar nada. Uma “anti-herói”?

Agora é com vocês leitores: fica a mensagem e a provocação dessa magnífica figura como exercício à reflexão.


E a BARATA? Vai encarar?


routenews.com.br

BIBLIOGRAFIA


BERNARDET, Jean Claude & RAMOS, Alcides Freire. Cinema e História do Brasil, SP: Editora contexto, 1994.
BERNARDET. O que é Cinema? SP: Editora Brasiliense, 2000.
CANEVACCI. Massimo. Antropologia do Cinema. SP: Editora Brasiliense, 1990.
COSTA. Antonio. Compreender o cinema. RJ: Editora Globo, 1987.
FURHAMMAR, Leif & IAKSSON, Polke. Cinema e Política, RJ: Paz e Terra, 1976.
LEITE. Sidney Ferreira. O Cinema manipula a Realidade? SP: Palus, 2003.
MATOS. Olgária C. F. A Escola de Frankfurt. SP: Editora Moderna, 1993.
MORIN. Edgard. Cultura de Massas no século XX (O Espírito do Tempo). RJ: Cia Editora forense, 1967.
SOUZA. Carlos Roberto de souza. Nossa Aventura na Tela. SP: Cutura Editora e e Associados, 1998.
SITE

DUARTE. Regina Horta. Nietzsche e o Ser Social Histórico ou da Utilidade de Nietzsche para os Estudos Históricos. Profa. Adjunta do Depto. de História – FAFICH/UFMG.

9 comentários:

Juci Barros disse...

Para pensar...
Beijos.

FÊNIX CRUZ disse...

Pois é Juuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu! Ainda estou sentindo o gosto da barata na boca...só não sei se recuperei completamente a minha humanidade: é tão difícil a gente se desprender das amarras sócio-culturais. É a morte de uma identidade e o renascimento de uma outra. A morte de uma tal fé, para o renascimento de um ser de POSSIBILIDADES. Outra vez..."tudo que é sólido desmancha no ar ". Muitos beijos e um excelente dia das mães para você se for, se quiser ser, ou, para sua mamãe do CORAÇÃO!

Lianara **Lia** disse...

Olá!

Vi você no blog da Tais Luso. Vim espiar e adorei!
Já virei fã e seguidora, viu?

Abraços

Lia

Blog Reticências...
http://liaks25.blogspot.com/

FÊNIX CRUZ disse...

Que bom que você veio espiar, Lia! Eu também fui espiar o seu e ADOREI o " Reticências"... viu como nem sempre a curiosidade mata??? Valeu!

Rak and roll disse...

Maravilloso! Unas reflexiones sobre el arte geniales, me encanta. Sobre todo, un final fantástico, para quedarse un rato dando vueltas.
Te visitaré con frecuencia. Beijos!

FÊNIX CRUZ disse...

Holla...

Fiquei muito contente com os seus comentários!
Vou aguardar a sua visita e acompanhar o Rak and roll com o mesmo entusiasmo!


Gracias por la visita - hasta la próxima!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Amigo Fénix

Conheci-te através do Veredas do nosso Pedrão. Vim ao teu blogue e gostei. Convido-te, por isso, a visitar a Minha Travessa e seres seguidor dela, o que desde já te agradeço.

Quanto ao teu texto, antes de tudo de confessar que sou um admirador incondicional da Clarice. Grande, grande, grande. O que escreve mexe comigo e, tenho a certeza, muita gente mais.

Por isso compreendo o que deixas escrito. E o trabalho de pesquisa bibliográfica, que raramente se encontra nos blogues, é também muito interessante.

Desculpa a chatice que te possa causar este ‘tuga desavergonhado e escrevinhador. Também ando pelo Facebook, o que quer dizer que estou aposentado, mas vivo. E tão bem disposto quanto seja possível…

Abs

FÊNIX CRUZ disse...

ADORO "TUGAS DESAVERGONHADOS E ESCREVINHADORES"! Posso demorar um pouquinho para responder, mas fico tão feliz quando vejo um comentário... Vocês, agora, fazem parte da minha vida e da minha felicidade, pois afinal, quem escreve - escreve para alguém...

Quero outros "chatos" aposentados conversando comigo e trocando muitas idéias e conhecimentos.Eu é que agradeço o que posso aprender com o senhor e com todos que passam por aqui.

Quanto a bela Clarice, realmente, muitos não conseguem compreender a sua profunda introspecção. Não é fácil conhecer a si, vasculhar por dentro: revirar cada cômodo - muitos trancados e mofados -, abrir janelas e EXPOR ao mundo o que precisa ser recuperado. Ela faz. Talvez, porque era fã da MORTE e, nós sabemos que, para RENASCER, é preciso primeiro morrer...

Um grande abraço!!!

Mamute disse...

Link inserido com sucesso no Mamute.

Semana31.
Vamos nós.
:-)

Boa semana

http://mamutelinks.blogspot.com/2011/08/eu-e-barata-o-lado-obscuro-das.html

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