"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

sábado, 22 de junho de 2013

Saraph ( Parte 4 C )

"O corpo da alma" - foto 2011 F.C


(Três meses depois da passagem de Elieser )
"(...) 


- O sentido da vida não pode ser essa luta incessante entre egos construídos sobre vícios passados fundamentados em erros de interpretação. Você me chama, agora, de demônio? Desconheço o que seja isso e, também, não quero explicações. Aliás, Elieser sempre falava deles. Tenho alguma ideia de que não é algo que 'Deus' criaria daquela ou dessa forma...
(…)

- O que fez com ele? Você o matou?

- Oh, não Ruth! Vocês todos se mataram e continuam se matando: a humanidade entrou em guerra contra a humanidade! Eu apenas o levei para a minha casa. Apenas isso. Para ele não havia mais nenhum outro caminho, pois a missão estava terminada.

- Claro... você sempre nos deu trabalho. Diziam que era das mais fracas do grupo. 'Frágil'. Devo confessar que muitas vezes a defendi, nem sei se por consideração ou dó. Mas, eu sei que ele a amava e, que os seus discursos - para o momento inúteis -, o comoviam por dentro. Ele nunca disse nada. Apenas saiba, se for mesmo do bem, que matou alguém que a amava de verdade! Ai... quanto sangue! É estranho... é muito estranho estar aqui definhando sem dor... é... acho que não tenho mais uma gota de sangue, não é? O que fez? Só parou a dor para me oferecer outra chance? Fale! Pare de me olhar com esse ar angelical! O que está acontecendo? Por favor, por favor, por favor não seja cruel...

- Sim, ele me amava. E eu a ele. Contudo, o meu amor o espera na outra dimensão, como antes dele precisar vir para cá. Não lhe pude contar em momento algum, até que o levei de volta e nos separamos novamente...

- Não pode ser... ele não pode ser como você!

- E não é. Tranquilize-se: ele ainda está jovem e como falam por aqui, 'evoluindo'. Não pode ver o que vejo, sentir o que sinto, porque precisa de suas próprias experiencias. Voluntariou-se para isso. O amor, talvez, tenha sido o único elo que nos ligou neste mundo. Nem mesmo o Mestre ousou 'apagá-lo' das memórias dele, na 'passagem'. É bonito, não é, Ruth? Quando eu puder voltar, irei reencontrá-lo e ele estará me esperando já consciente.

- Você está me enganando...não pode me enganar! Você – a retardada -, que sempre só soube sorrir, mesmo envelhecendo visivelmente diante do sofrimento de todos, inclusive do seu? Ninguém nunca lhe deu nenhum valor! Aparece aqui para me dizer que é um anjo, que matou o meu marido, levou Elieser e precisa de mim?

- É, sei disto, Ruth. Repito: eu não matei o seu marido e nem Elieser. O seu mundo está em guerra mundial. Algumas poucas pessoas de coração impuro e nos lugares chaves errados conseguiram desencadear o caos, no sentido 'humano' de caos. Fui clara? Minha linguagem ainda se adapta à de vocês. Creio que tudo foi muito rápido e não tive o tempo necessário de estudá-los para me fazer compreender. Mas, o caminho se faz percorrendo. E estou aqui contando com a sua força. Do mais, sei que nunca concordou com eles, embora também, não me oferecesse a mão. Calasse. Ah, sim... envelheci diante dos impasses que vivi, ciente dos mundos, necessitando me humanizar, sem abandonar minhas memórias e minha missão. A materialização sofreu tais consequências. Não pense que foi fácil abandonar minha vida por esta aqui. E, finalmente, para encerrar de vez com as suas dúvidas, outra lição que o seu mundo me ensinou foi muito simples e útil: a de que todo super-herói parece retardado, não? Não me sinto um deles... sei que estão espalhados por ai com suas vidas aparentemente inúteis, como era a minha, salvando vidas com as suas vidas, com gestos comuns como os de um abraço, um sorriso, uma palavra, um carinho, um conforto. Pessoas anônimas, fracas e frágeis diante de um tapa, de uma guerra, da força bruta. Anti-heróis, na verdade. Invencíveis - frente a escuridão da alma e do espírito inculto. Eles são considerados entraves e panacas. Quando são apenas, visceralmente humanos.

- Eu não sei o que dizer...

- Não diga. Aprenda: eu não sei o que é um Anjo. Não me chame disso. Estou indo.






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