"(...) -Como eu gosto de você?

Eu gosto de você do jeito que você se gosta".

O Mundo no Engenho... e o ENGENHO do Mundo

domingo, 29 de agosto de 2010

Democracia: reflexões a respeito dos direitos da mulher – um estudo do século XX.

 Desenho: "Olhar Feminino",Fênix, 2010.
“ A imagem de Kitchener nos cartazes, fisionomia severa, olhos de aço, apontando o dedo diretamente para o rosto de todos. Fazendo propaganda de guerra, vendendo-a como os sabonetes Pears ou White Manor Tea Shops. E, é claro, os homens iriam depressa se apresentar à procura de um pouco de agitação e aventura. As mulheres também...

MULHERES DA INGLATERRA, RESPONDAM AO APELO

… para serem preparadas como enfermeiras no Queem Alexandra's Imperial Military Nursing Service, na Cruz Vermelha ou aprender o trabalho traiçoeiro de colocar lidite nos obuses. Muito melhor do que servir mesas e esfregar corrimões.”

(Quando os sinos se calam – Phillip Rock, 1979 / ficção ambientada em 1914)


A ironia da Guerra é ser um substantivo feminino, um símbolo masculino, de efeitos práticos drásticos para a humanidade...
O início do século XX foi marcado pela surpresa de um conflito que, embora tenha sido teorizado e nutrido ideologicamente entre as partes opostas envolvidas, não fora de forma verdadeira esperado(1). Este “inesperado” deflagrado sob a pressão das paixões e das febres patrióticas, talvez, seja mais dinâmico e complexo do que a história descritiva e polarizadora nos permitiu vislumbrar.
Foi a morte de milhares de Seres Humanos, na Primeira Grande Guerra Mundial, por questões políticas e econômicas entre as “nações” (2), o elemento desencadeador da primeira reação contra os valores tradicionais-patriarcais nas sociedades liberais democráticas. Diante do flagelo real, o mundo entre guerras já abalado por mortes ou humilhações sofridas, seja intra ou extra fronteiras, assistiu ao surgimento e ao desenvolvimento dos regimes Totalitários e à explosão da Segunda Grande Guerra Mundial. Buscou-se heróis e culpados para ambas, o soldado permaneceu “soldado” e, como da outra vez, continuou desconhecido. A mulher figurou entre os apelos e os homens morreram pela pátria, a grande “mãe” fictícia.
Se foi o pai, father ou fathers e, não os pais – parents – que ensinaram a morrer ou matar o Outro visto sob juízos de valor, descaracterizados do humano(3), ficava evidente que a Igualdade, Liberdade e Fraternidade estavam longe de anunciar, como muito foi posto, o fim da opressão entre os homens-irmãos, menos o faria em relação às mulheres.
Se quisermos explicar a democracia e os direitos da mulher, a chave dessas problematizações deve ser buscada na Revolução Francesa.
François FURET, em sua obra Pensando a Revolução Francesa, nos chamou a atenção para dois pontos relevantes na elucidação deste trabalho. O primeiro refere-se à “obsessão pelas origens” desencadeada pela construção da “história nacional”(4). Dos Estados, no que tange à democracia, ela pode ser observada nas contínuas convocações feitas ao sexo feminino, principalmente durante os períodos de guerra - para que auxiliem o seu país...
O segundo refere-se aos recortes e compartimentações inventados pela periodização realizada entre os acadêmicos franceses que, ao estudarem a Revolução de 1789, limitaram-se a separar e rotular nominalmente os acontecimentos entre “antes” - o feudalismo, a nobreza, o Antigo Regime, a Idade Moderna -, e o “depois” - o capitalismo, a burguesia, a democracia, a idade contemporânea – reduzindo e só em aparência, explicando a história (5). À ideia de causa-efeito, critica CASTORIADIS utilizando-se da terminologia “sinergia”, que para ele é a “concatenação de fatos 'não relacionados internamente' mas coexistindo externamente (sendo que) tais fatos, ou acontecimentos, provocam o aparecimento de fenômenos situados em outro nível possuindo uma significação que de longe transcende a de suas causas” (6). Dessa maneira, o fluxo e o refluxo histórico não comportam regras definidas e a história - deveras linear -, não só deixou de ser o saber dos fatos que falam por si(7), como também, “mostrou ser o campo onde emerge o significado, onde ele e criado”(8). As sociedades e as instituições são históricas e conjunturais, assim, como bem expôs em palestra(9) Lygia Quartim de Moraes, tudo é um “composto social”. Para exemplificar, dentro do nosso ponto de vista, basta lembrar que no mercado do pós-guerra a mulher é um indivíduo a mais na efetivação do circuito da produção/consumo/mercadorias. E, ao abordar acerca do tema trabalho, Quartim colocou que a grande diferença entre a revolta das mulheres da década de 50 para cá (1995), é justamente o “desconforto” de uma dupla jornada. Se a luta foi pela autonomia através do trabalho, sabemos hoje que isto é uma falácia, porque as mulheres dos estratos mais pobres sempre foram obrigadas a trabalhar, nem por isso livraram-se dos afazeres domésticos ou sequer, tiveram o seu poder político e de decisão reconhecidos. A “Panaceia do voto”, conforme Emma Goldmann, não trouxe a tão esperada liberdade e só levaria as mulheres a o adorarem como a um novo senhor (10)...todavia, ele já é um começo. Falta-lhes ainda, em boa parte, é consciência para lidar com as entrelinhas dos discursos, dos apelos emocionais “engrandecedores” até meio “ufanistas”, com os estereótipos que se moldam sob outras formas e com os mesmos conteúdos.
Não discordamos das virtudes primeiras da Revolução. Porém, da teoria à prática há um grande espaço vazio a ser preenchido à posteriori, em consonância com o dinamismo político, econômico, social e cultural local. Os signos da Revolução devem ser decodificados para que deles, se revele o que e a quem os direitos garantem e, por isso, são garantidos...
Finalizando este tema, devemos advertir que nossa crítica não é, absolutamente, contra a democracia, e sim contra a aceitação passiva ou à tendencia atual de se desconsiderar as relações de dominação reelaboradas, mas ainda existentes e encobertas no interior do Contrato Original, Sexual e de Trabalho. As conquistas efetivas do gênero estão sendo trocadas, gradativamente, por posições de status e outras, similares às ambições masculinas. Valores idênticos são tomados como justificativa dessas ações, como é o caso da concorrência, da competitividade,
do individualismo, etc. O distanciamento do feminino, o auto-conhecimento, a auto-estima, as peculiaridades corporais, o exercício da sexualidade , muito recentemente vem sendo tratado em raros trabalhos como o de Rosiska(11), dignos de nota e de leitura. É um novo caminho. Basta, agora, que se ouse continuar a traçá-lo assumindo a identidade feminina e exigindo não do sexo oposto, mas de si mesmas, soluções e respostas: “Eu não sou O OUTRO”.
Notas


1 HOBSBAWM. Eric. A Era dos Impérios. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992, p. 418 - 419.

2 HOBSBAWM. Eric. idem idem, p. 421. O autor alerta sobre o desenvolvimento de uma cultura nacionalista, isto é, sobre a "inculcação do comportamento cívico apropriado", trabalhado ideologicamente junto às escolas primárias e ao serviço militar.

3 SEVCENKO. Nicolau. Disciplina História das Ideias. Curso ministrado no depto de História, primeiro semestre de 1996.

4 FURET. François. Pensando a Revolução Francesa. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977, p. 16 - 17.

5 FURET. François. Idem, idem, p. 16, 17 e 27.

6 CASTORIADIS. Os destinos do Totalitarismo e outros escritos. L.P.M. Editores, Porto Alegre, R. S. , 1985, p. 8.

7 FURET. François. Op. cit. p. 26.

8 CASTORIADIS. Op. cit. p. 08.


9 MORAES. Lygia Quartin de . Simpósio Dialética - em Comemoração ao Centenário da morte de Engels. Exposição: Marxismo e Feminismo. Novembro de ano, 1995.

10 LOBO. Elizabeth Souza . Emma Goldman. Coleção Encanto Radical. Brasiliense, 1983, p. 35.

11 OLIVEIRA. Rosiska Darcy. Elogio da Diferença. Brasiliense, S. P.,

BIBLIOGRAFIA PESQUISA:


BADINTER, Elizabeth. Um é o Outro. Editora Nova Fronteira, R. J. , 1986.

CASTORIADIS. C. Os destinos do Totalitarísmo e outros escritos. L. P. M. Editores, Porto Alegre, R. S., 1985.

FURET. François. Pensando a Revolução Francesa. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1977.

HOSBSBAWM. Eric. A Era dos Impérios. Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992.

LOBO, Elizabeth Souza. Emma Goldman. Coleção Encanto Radical. Brasiliense, S.P. , 1983.

OLIVEIRA. Rosiska Darcy.elogio da Diferença. Brasiliense, S.P.

PATERMAN, Carole. O Contrato Sexual. Paz e Terra, R. J., 1993.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracia na América. Companhia Editora Nacional - EDUSP.SP, 1969.



 Desenho: Babel - a meretriz, 2010.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Doutrinação


 Desenho: Babel - meretriz, 2010

Minha vida na BABEL.
Minha existência de PAPEL...
CARIMBADA
ROTULADA
CONDENADA
À meretriz de outro tipo de bordel:
BUROCRÁTICO.
Foge de mim o que resta de mim.
Presta ao SIM -
Pois, é o que sugere o meu SILÊNCIO.
E se compenso nas vitrines vazias,
É porque vazia estou e PENSO
Nessa LETARGIA...
Abdiquei das TEORIAS.
E de barriga cheia
ENGORDO,
Entupo-me de remédios.
Sou como todo cidadão "médio".
DOMESTICADO,
Sigo à risca
A arquitetura rígida -
CONIVENTE com os simulacros -,
Assim, eu me acabo.

sábado, 21 de agosto de 2010

ENGENHOS

Desenho: Fênix.

Viver um dia de cada vez
Com a lucidez de quem saboreia os últimos anos.
Sentir-me parte dos ramos
Que adornam a Árvore da Vida:
E, não há, outra saída
Além de pensar nos tantos tesouros
Que não são prata ou ouro...
Nos matizes de Matisse;
Nos dons dos aprendizes;
Nas notas míticas de Stravinsky;
Em emoções monocromáticas
Irrompendo a estática:
E LUMIERE em nossos SENTIDOS!

Noutra profusão de sons ou ruídos,
Testemunhar surgir outros mundos
A serpentear pelos circuitos!
Máquinas da contradição:
De cativeiro ou liberdade?
De exílio ou união?
Engenhos humanos,
Engenhos divinos ou profanos -
O queijo e os vermes num só Plano -,
Qualquer instrumento
Para cada intento:
Milagres ou massacres ao alcance das mãos!

Só neste Outono
Percebi a minha folha a agonizar no ar.
Nela, meu Eu esquecido -
Cor de cobre.
Talvez, pintura de Renoir:
Pinceladas de alegria e convívio?
... Assim poderia ter sido.
Da cantata que deixei de cantarolar;
Dos afagos e desejos que não quis expressar...
Perdi a chance do melhor Romance.
Deixei a Vida fora de alcance
Sem perceber:
O que há de mais belo além do ELO
Que nos UNE à essência que alimenta tudo isso?
É SENTIMENTO
  Que o tempo consumiu no compromisso...
E, são tantos os tesouros que não são prata ou ouro!

domingo, 15 de agosto de 2010

M A T R I X é aqui.

Matrix, 1999, na "Caixa que fala".

 À jovem Juci Barros.

 "O que estou fazendo não está dentro das regras"
(Teddy Daniels - Ilha do Medo)

Vivemos a MATRIX.
Resta-nos saber de quem ou
Do que devemos nos libertar.


Houve um tempo em que muralhas, calabouços, torres e paredes continham os ânimos dos rebeldes, cumprindo as funções de "contenção" ou "proteção" a que se prestavam, fossem simbólicas. Descoberta a falha, tornaram-se ineficientes e outros modos de contê-los - mais sutis -, foram inventados e aprimorados, sempre em nome de uma "tal" ORDEM.
A arquitetura invisível é a mais perigosa. É ela que nos induz imperceptivelmente a auto-condenação e a um DETERMINISMO que se concretiza, à medida que ACREDITAMOS nele, com FÉ quase divina...

Querem entender os becos deste labirinto de Minos?

Vamos voltar ao assunto CINEMA. Quando pensei em “Demolições” busquei expressar por meio das palavras e de suas metáforas o que vivenciei à época e que hoje vivencio com um mal-estar triplicado: a idéia de um mundo / SIMULACRO. E muitos elementos de “Demolições” de 1993/4, revi na tela de MATRIX ( de 1999) anos mais tarde. Ora, não estava me sentindo tão controlada, sozinha. Em algum lugar outros falavam de outras formas a respeito dessa violência velada, enraizada e interiorizada como sendo o modo de vida “normal” e o " tipo Ideal" de SER. Recentemente, a ILHA DO MEDO me impactou e não só a mim, como a muitas pessoas, incrédulas com o desfecho magnífico do filme. Bem, mas por que falo de dois filmes tão diferentes? A mente é a palavra-chave. É o único elo entre eles e que revelará tudo o que têm em comum. Em MATRIX(1), a mente está aprisionada numa cela virtual que cumpre os propósitos de controlar o corpo, com a finalidade de dele se retirar a energia necessária ao funcionamento do mundo das máquinas – a “bateria”. É a evidência de um abalo, o descontentamento, a inquietude, o desprezo a ordem, enfim, é a perturbação incômoda que leva os agentes cibernéticos ao mundo da MATRIX: à caça ao HACKER. À perseguição de Neo e da Resistência – dita como organização terrorista -, e que está a buscar os seus potenciais combatentes entre as mentes ludibriadas por falsas memórias. Memórias plantadasmemórias residuais(2). São estes os elementos que constroem o enredo do filme e que nos permitem interpretar, de acordo com nossa própria vivência neste mundo nu e crú do REAL(?).
O acerto ou o erro? A vantagem ou a desvantagem? A mudança ou a mesmice? O sucesso ou o fracasso? O herói ou o covarde? A liberdade ou a escravidão? A pílula vermelha ou a pílula azul? As ESCOLHAS... seria impossível deixar de falar delas. A Neo, como aos demais, são ofertadas possibilidades delimitadas: a da MATRIX / SIMULACRO, ou a da Resistência / VERDADE. Ambas São difíceis de aceitar porque são a DESCONSTRUÇÃO (“Demolições”) de tudo que se acreditava como sendo verdadeiro e absoluto, até então. MATRIX é uma vida manipulada por máquinas e a Resistência é uma constante fuga aterrorizante pelo submundo dos esgotos, sob escombros de cidades, tendo a ciência de que em algum lugar há "Usinas" com culturas de humanos e, sem saber ao certo, quem são e como são os “novos”inimigos... é revelação demais para tão pouco tempo. Pior, para não ter mais volta à INOCÊNCIA. Ou, seria melhor dizer à doce IGNORÂNCIA? A liberdade apresentada é a escolha cega entre duas possibilidades. Não há outras opções. Só direcionamentos. Isto é muito importante para que possamos nos perguntar até que ponto somos livres quando nossas escolhas se limitam a fazer a opção “A”, “B” ou “C”, sem que possamos, por exemplo, “não fazer”. Quando somos forçados a decidir mesmo quando nada do que nos foi oferecido interessa, somos livres ou somos dirigidos?
Sim, no filme, Neo opta – mostra certa hesitação -, mas a curiosidade e a necessidade de transformar que já o inquietava e fazia DIFERENTE ( o Escolhido ) o empurra para a ousada mudança. Entretanto, para  Cypher a escolha não deu certo. Preferia a antiga ilusão – a memória plantada e residual nunca vivenciada pelo corpo real(3).
E pergunto outra vez: até que ponto minhas escolhas me fazem livre? Até quando o Sistema pode me causar, ou não, essa falsa impressão? Será ela pior ou melhor para mim? O que em nós foi interiorizado (plantado?) de tal modo a formar estruturas rígidas, porém, invisíveis, as quais percorremos despercebidos, crentes em nossa independência? Somos felizes com nossa consciência ou com nossa ignorância?
O patrão de Neo disse “ Você não aceita autoridade Sr. Anderson. Você se acha especial, como se as regras não se aplicassem a você. Chegou a hora de fazer uma escolha. Ou você escolhe estar na sua mesa no horário, a partir de hoje... ou, você escolhe achar outro emprego.” ( Alguém já ouviu isso antes?). Por outro lado, Cypher vê em Morfeu o mesmo autoritarismo e se revolta, por seus sacrifícios reais e pela perda da ilusão de MATRIX. Às vezes, esquecemos que do lado de cá da tela existem Neos e Cyphers vivenciando situações semelhantes. Quem somos? Ou não somos? Ou...
Finalmente, Neo / Teseu, por sua astúcia, venceu as memórias plantadas - inclusive a do medo,(4) a do DETERMINISMO alienante - e, por auto-determinação entrou no jogo e usou a própria linguagem deste(5) como instrumento para vencê-lo, mesmo que provisoriamente. Talvez, “o episódio” possa representar “um dia” de nossas vidas, pois em todos precisamos lutar e, nem sempre, conseguiremos vencer: pode ser mesmo, que o melhor seja naquele exato contexto, correr, como pregou Cypher.
O labirinto de Minos – a construção invisível social disciplinar, pré-fabricada – precisou ser demolida dentro, na mente de Neo / Teseu. E todos os dias descobrimos que é preciso derrubar alguma coisa para avançar e, tomar cuidado para não ficar preso, imobilizado sob os escombros dela...

E a ILHA DO MEDO?

Ambientação, recursos técnicos, enfoque... aparentemente NADA teriam em comum, como já foi dito, se não fosse a mente humana, a questão. A mente como elo, a sua manipulação / aprisionamento por meio de estruturas cuidadosamente elaboradas para isso.
Em boa parte do filme cremos que caminhará para um tema meio clichê, com um final esperado, depois de desaparecimentos, buscas, investigações... de repente, com maestria, alguns sinais que foram sendo deixados quase que de forma insignificante se unem dando forma ao quebra-cabeça, nos fazendo boquiabertos e perdidos diante das mais variadas hipóteses que se abrem em leque, a respeito da LOUCURA, das estruturas e suas finalidades para “contê-la” / apartá-la do restante da sociedade, da TORTURA psicológica, outra vez, do falseamento da MEMÓRIA, da indução ao erro(6), etc. Aqui, como em MATRIX,  Chuck deve escolher um lado e, prefere fazer a escolha mais conveniente, talvez, a menos perigosa. Em nome da própria liberdade?
O processo é de extrema importância para chegarmos a seguinte conclusão: nenhuma. Cada um interpretará de acordo com as próprias percepções, tendo gente que ficará extasiada como eu e, gente enfurecida, excomungando o dinheiro gasto com a entrada de cinema. Todavia, seria impossível fugir ao que parece a montagem de um esquema, no qual, a princípio, alguém precisa ser calado ou, no mínimo desacreditado para não oferecer riscos a um Projeto de Poder: um investigador xereta que não deveria se meter nos assuntos ultra secretos de Minos. Simula-se um desaparecimento; busca-se no histórico de vida do futuro acusado um ponto vulnerável; forja-se o ambiente, inclusive, administrando-se drogas(7) que poderiam levá-lo a certos delírios; num lugar já isolado – a ilha -, onde o medo(8) é uma constante de controle – um homem está apavorado com “A bomba de Hidrogênio”(9) e uma mulher não sabe direito se se acostumaria com a Televisão: " ...Vozes e rostos saindo de uma caixa”... o mundo fora tornou-se mais hostil do que o da ilha (... as sombras  projetadas na parede da Caverna?). Em suma, quando o individuo passou a duvidar da própria identidade e tomar atitudes confusas e descontroladas, pronto – tudo estava armado. Se não foi essa a intenção, valeu por nos relembrar que o Sistema pode ser cruel com aqueles que crêem em outros códigos de justiça e se insurgem contra a ORDEM, seja a MACRO ou a MICRO, estabelecida no interior das instituições e cristalizada como privilégios da cúpula e de seus membros. Na Microfísica do Poder, Foucault discute acerca dessas estruturas disciplinadoras que visam por na linha quem está fora( os Neos, os Cyphers, os Teddys... ) ou segrega-los e até eliminar os "diferentes", como já vimos e continuamos vendo em tantos exemplos da História ( a Matrix é aqui ).
Significativa é a frase final. Ela revela e abrilhanta com toda a sua simplicidade a trama e o drama do filme:

Este lugar me faz pensar. O que poderia ser pior? viver como um monstro ou morrer como um homem bom? ”.

Ali, o seu destino estava perfeitamente traçado(10)... que atitude seria maior loucura – a que tomou ou a que deixou de tomar?

...E o labirinto neste caso?

Depende de você leitor – você  crê que  Teddy / Teseu demoliu as estruturas ou passou a ser parte dela? Acha que ele ( Laeddis ) ficou louco e que toda aquela montagem foi feita para lhe tentar salvar a vida e ganhar créditos para a Instituição? Ou será que o Rei Minos venceu soltando os seus Minotauros ( os agentes da Ordem)?

Essa resposta não é minha... pensem. E escolham: a doce ignorância ou o incômodo sofrimento do saber?


1 - Matrix / Matriz - lugar onde algo é gerado. Útero, mãe.
2 - A primeira Matrix, segundo o agente cibernético, não deu certo, pois era como um Paraíso. A segunda não passava de cópia do que havia sido a "civilização" em 1999.
3 - Morfeu diz que oferece a verdade - a verdade  ( de Matrix) não é o real -, Matrix é um Sistema, uma inteligência baseada num mundo feito de regras, onde o corpo (a bateria) está separado da mente aprisionada e, que tem como lembranças uma vida não vivida. Entre as escolhas, Neo terá que "morrer", isto é, deixar de ser o que nunca foi, para poder ser quem resgatará Morfeu. Enfim, começar a traçar as suas próprias memórias.
4 - No elevador: "A colher não existe" - o medo de Neo, de altura, teria que existir?
5 - Usou a linguagem das máquinas - o código das máquinas - e sua previsibilidade. 
6 - O encontro com Solando na caverna e o "Tratado" daqueles que estudam como se pode reduzir o Outro a meras cobaias humanas.
7 - No café, nos cigarros, na comida, na bebida... sem saída.
8 -Aliás, como em Matrix.
9-Que criminoso interessante, não? Tantos conhecimentos para um enjaulado... seria um doente mental comum ou outro igual ao "socialista" Noyce que "de - repente" surtou? 
10 - A lobotomia: "O cérebro controla a dor, o medo, a empatia, o sono, a fome, a raiva. Tudo. e se pudesse controla-lo? Recriar um homem para que não sinta dor, amor, compaixão. Que não possa ser interrogado porque não tem memória para confessar (...)" - Ilha do Medo, Rachel Solando...

Aviso aos Navegantes:

Como o texto acima é uma interpretação pessoal, coisa que toda obra aberta permite que façamos fundamentados em nossas próprias leituras e experiencias, aqui não se tem a menor pretensão de ser “Crítico de Cinema”. Até porque o que se discute não são os filmes por si, mas, aquilo que suscitam ao espectador, a mensagem explicita ou subliminar, a linguagem(Forma / Conteúdo), o que deles se pode apreender e relacionar ou não com a vida real, e isto, num primeiro instante – pois que outras análises podem ser feitas e modificadas noutro momento. Desta forma, por aqui não há respostas: apenas perguntas.
Aquele que necessitar de informações técnicas e precisas, deve buscá-las nos sítios especializados.


Livros - leituras básicas:

FOUCAULT. Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.
GHIRALDELLI JR. Paulo. A História Essencial da Filosofia. Volume 4, São Paulo: Universo do Livro, 2010.

Revistas

Filosofia ( Ciência e Vida). Ano IV, nº 42, Editora Escala, 2009.
Filosofia ( conhecimento Prático). Nº 17, Escala Educacional, s/d.

Edição foto: Matrix

sábado, 7 de agosto de 2010

D E M O L I Ç Õ E S

desenho: Fênix, "Demolições", 2010.

Arquitetura disciplinar.

Domesticação oculta.

Subterfúgios linguísticos...

Engenharia de precisão:

Controle dos sentimentos,

Esquadrinhamento racional e minucioso

Do                             espaço

                                  tempo 

                                  ação...

Condicionamentos técnicos.

Laboratório-sociedade

 ORDEM

 CRIME

 PENAS E PRISÕES... 

(Exorcismos internos)

Experiências (?) codificadas.

Axiomas,

Meios-termos, amiúde,

Omissões do saber voluntárias...

Esfacelamentos de princípios humanos - 

Cacos de belíssima porcelana - , 

CORTANTES,

Testemunhos à espera,

Sob os escombros 

De uma construção pré-fabricada.

Autômatos humanos -

Cama de pregos e EGOS -, para NADA!

Cobertor de vespas?

Conforto social civilizado

E cárceres privados de diferentes facetas:

        EXPLOSÕES.

                       IMPLOSÕES ...

B u r a c o s-negros na Memória

Sugando, sugando, sugando ...

O que a velocidade não edifica:


D E

      M O 

           L I

      Ç Õ

      E

         S .
              .
               .






1993/94.

domingo, 1 de agosto de 2010

Saraph II

 Desenho: Fênix, "Shaar", 2010.
 "(...)
-  Talvez, você não entenda porque o seu  parâmetro de análise  não seja o mesmo que o meu.  São leituras distintas. Não quero ter razão: quero ter respeito. O respeito é universal - a razão é excludente. Assim,dispenso as justificativas para esse seu argumento.

Ruth  a encarou por alguns instantes. Parecia um tanto espantada, como se ela tivesse lhe feito a Revelação do Fim dos Tempos.

- Eu nunca havia pensado assim, Shaar... você é mesmo estranha...

Emendou a outra, quase que imediatamente:

- Diferente? Acho que até repetitiva, às vezes, porque estou tão cansada de me defender de você e de todos que estão por aqui...enfim. Ruth, estamos numa guerra. Você e os outros se deram conta disso? Se lutarmos contra nós, internamente, podemos anunciar aos nossos inimigos que estamos derrotados. É assim que se vence: dividindo! É assim que se convence: opondo uns contra os outros! Olhe a sua volta. Quer continuar sobre os saltos? "

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